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POLIANTEIA

Um arranjo com os meus textos acadêmicos publicados no jornal A TRIBUNA, Santos, SP.

'POLIANTEIA - UM ARRANJO COM TEXTOS PUBLICADOS NO JORNAL “A TRIBUNA”, SANTOS, SP.

OBRIGADO, amigas e amigos, pelo carinho de vocês.

É uma honra imensa comemorar com vocês nos meus 90 anos de idade, contando um pouco de uma história vivida ao longo do tempo.

   Com os agradecimentos, na pessoa da jornalista Arminda Augusto, pela permissão para a reprodução dos textos acadêmicos de minha autoria, publicados em diversas edições do jornal A TRIBUNA, Santos, SP. Os textos encontram-se vertidos automaticamente para oito idiomas.

Elcio Rogerio Secomandi

            

 
 

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      Após 35 anos no Exército Brasileiro e 25 anos de Magistério Superior, dirigimo-nos às/aos amigas/amigos com o mesmo entusiasmo que nos levou ao mérito militar, ao mérito cultural e ao emérito acadêmico, em iguais oportunidades para quem procura a carreira militar, cultural e/ou acadêmica, com uma visão filosófica de Blaise Pascal (1623-1662):

“a sorte ajuda a mente preparada”.

   Muitos jovens divulgam suas aptidões acadêmicas e profissionais em busca de um futuro promissor, o que é recomendável. Para a minha idade, claro está o simples desejo de explorar três palavras-chave – recordação, reconhecimento e esperança.

   Produzimos quatro edições sucessivas de um livro e, por fim, colocamos à disposição de todos em um website que trata exclusivamente deste assunto e que, perdoem-se a ousadia, com média de duzentas mil consultas mensais, vertido automaticamente para oito idiomas.

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“HISTORIA MAGISTA VITAE”

   A expressão que usamos para titular este ensaio acadêmico é de autoria do filósofo Marco Túlio Cícero (106-43 aC) no tratado retórico ‘De Oratore’ (Sobre o Orador), escrito por volta de 55 a.C. Tomamos a liberdade de nos apropriar da magnífica citação para expor alguns acontecimentos marcantes ocorridos no Brasil durante o longo período colonial, os quais muito nos aproxima da “história como mestra da vida”.

   Nos primeiros séculos da ocupação territorial do Brasil, os portugueses concentraram-se da exploração do litoral, com breves incursões exploratórias, impulsionadas a partir do período de união das coroas ibéricas (1580 – 1640) e da descoberta do ouro nas “Minas Gerais”, minimizando assim, as limitações impostas pelo Tratado de Tordesilhas (1494). A partir de meados do século XVIII a exploração territorial buscou reconhecer e ocupar o que chamavam de “Ilha Brasil”, formada teoricamente pelas terras a leste das bacias dos rios Paraná, Paraguai, Madeira e Amazonas. Durante 10 anos o militar português, Raposo Tavares – “o último bandeirante” – reconheceu a enorme “ilha”, percorrendo os rios indicados acima e retornando à Capitania de São Paulo, por mar a partir de Belém, PA, dez anos depois, com poucos sobreviventes de uma fantástica expedição que muito auxiliou no reconhecimento do atual e enorme espaço territorial do Brasil.

   Os espanhóis, assim como os portugueses, não desejavam dar espaço na América do Sul às conquistas inglesas e francesas como ocorreu na América do Norte e na América Central e nordeste da América do Sul, somando-se também os holandeses. A expansão para o Oeste e para o Sul, ultrapassando a imaginária Linha de Tordesilhas, deu origem a um processo de ocupação territorial pelos portugueses e habitantes da terra, estimulando-os a avançarem por terras nunca dantes exploradas. Para assegurar a posse das novas terras e impor a autoridade portuguesa, “inúmeras fortificações coloniais não só marcaram a presença de vilas e cidades de origem lusitana, mas também o contato entre diferentes culturas” (UNESCO, 2015) e foram construídas pelos donatários em troca de títulos honoríficos e reconhecimento de posses e obrigações de defesa da terra, ficando Portugal apenas com a defesa marítima. Dezenove dentre as inúmeras fortificações coloniais encontram-se atualmente indicadas para o Patrimônio Cultural da Humanidade, por manterem diferentes traçados, estilos e técnica de construção, ímpar mundo afora, além de serem fundamentais para a definição do espaço geográfico brasileiro.

  1.ÁREA DEGRADADA A RECUPERAR

  A TRIBUNA, 04/01/2024

   O Jornal A TRIBUNA, no dia 1 de dezembro, nos trouxe uma reportagem sobe o Porto de Antonina, Paraná, destacando o trabalho de recuperação de uma área florestal de “190 mil metros quadrados”.

   Sem dúvida, um bom exemplo para o Porto de Santos, situado no estuário que se abre entre as ilhas de São Vicente e de Santo Amaro, precedido pela Baía de Santos, moldurada por dois extensos costões rochosos que avançam para o mar aberto, cobertos por ricos exemplares da Mata Atlântica.

   No costão situado na Ilha de Santo Amaro, Guarujá, sobressaem-se duas enormes áreas degradadas e separadas por uma pequena área preservada, no formato de um “V”, que desce da encosta íngreme até alcançar os rochedos junto ao mar. Nas duas enormes áreas descampadas existiam plantações de limão, hoje chamado Morro dos Limões. Visconde de Taunay, Na Era das Bandeiras, no capítulo “Um Assalto a Santos”, descreve com precisão a presença e os ataques do corsário irlandês Joris Spilbergen às vilas e engenhos da Ilha de São Vicente, em 1615, com destaque para a colheita de limões, fundamentais para os marinheiros combaterem o escorbuto.

   Na área preservada no formato de um “V” existem duas excelentes fontes de água doce, também fundamentais para o reabastecimento dos navios vindos da Europa, para contornar o Estreito de Magalhães e alcançar o Oceano Pacífico. Antes da fundação da Vila de Santos (1546) os navios lançavam âncora na embocadura do estuário, diante das duas áreas degradas, em local hoje demarcado com uma cópia do padrão português de posse da terra, semelhante ao que existe em Sagre, Portugal.

   A pequena faixa preservada com mata natural, em formato de “V”, se destaca em área bem visível entre a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande – mais expressivo conjunto arquitetônico militar do Estado de São Paulo – e o Fortim do Góes. Nossos antepassados tiveram o bom senso de preservar aquela faixa, coberta com a Mata Atlântica, deixando “invisíveis” as ruínas de um antigo posto de observação militar colonial, com cerca de 100 metros quadrados, assentado em uma plataforma de pedras, cravada no morro, junto a uma fonte de água doce.

   A maioria das reportagens de TVs e de jornais captadas a partir das praias da Baía de Santos, tem como plano de fundo, as duas cicatrizes que se destacam visivelmente em um enorme cenário onde predomina a Mata Atlântica natural e preservada. Recuperar as duas áreas degradadas nos parece uma boa ação a ser encampada por empresas que operam no Porto de Santos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), sem dúvida, autorizaria tal intervenção e a natureza e o meio ambiente, seriam recompensados.

   Elogios não faltam, pis creio que não haverá ninguém para criticar uma ação que se opõe à devastação de áreas florestais como ocorreu mundo afora e agora nos ameaça. Não faltarão também empresas especializadas para elaborar um projeto de reflorestamento de tal importância. Talvez até como uma boa ação de “compensação ambiental”.

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2. ROTA DO CAFÉ

A TRIBUNA, 12/04/2025

   O café, como sabemos, mobilizou inúmeras famílias brasileiras durante e após a 2ª Guerra Mundial, por conta das restrições impostas aos imigrantes de origem italiana, alemã e japonesa. Muitas famílias de cafeicultores dos estados que dispunham de meios de ferroviários para alcançar São Paulo (Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santo) foram convidadas a emigrar com o propósito principal de ampliar a produção paulista e alavancar a exportação pelo Porto de Santos.

    Minha mãe, viúva com cinco filhos, sendo três menores de idade, teve que deixar uma fazenda de café no Estado do Espírito Santos, por reflexos da política do governo Getúlio Vargas, interessado em concentrar a produção no Estado de São Paulo. Nós levamos vários dias, viajando sentados e deitados em banco duros de trens mistos, passageiros e carga, pelas estradas de ferro Vitória a Minas, Leopoldina e Central do Brasil. Nós fomos “recrutados” por uma família abastada e produtora de café.

  Uma busca simples no Google sobre a “Rota do Café” nos leva a reproduzir um dos roteiros oferecidos: “O circuito do café pode ser considerado uma rota das fazendas que produzem o grão em determinada região, como Minas Gerais, São Paulo ou Paraná. Os passeios levam os visitantes a tocar os grãos in natura, caminhar pelas lavouras e conferir de perto a produção”. Discutindo este assunto com o amigo João Jorge Peralta, entusiasta de uma possível indicação da Rota do Café para o Patrimônio Mundial pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Resolvemos então, buscar ensinamentos no exemplo de Paraty e região, sobre a Rota do Ouro, que se desenvolveu durante o longo período colonial (séculos XV a XVIII), recentemente reconhecida pela UNESCO.

  O Estado de São Paulo não possui nenhum bem cultural reconhecido pela UNESCO, o que nos leva a pensar na indicação da Rota do Café que muito se assemelha à Rota do Ouro. Precisamos de algumas pessoas ou instituições que possam dar o recado a fim de levar o Estado de São Paulo à obtenção ao menos um bem cultural reconhecido pela UNESCO.

 “Alea jacta est”, ou seja, a sorte está lançada. Basta alguém dela se apropriar e fazer a Rota do Café tornar-se uma realidade.

3. ESTRATÉGIA, TÁTICA E LOGISTICA

A TRIBUNA, 27/04/2025

   Segundo André Beaufre (1902 – 1975), general francês considerado idealizador da escola moder/04a sobre assuntos estratégicos, Política, Estratégia e Objetivos são palavras-chaves, que orientam a elaboração dos documentos fundamentais para a análise dos cenários nacionais e internacionais mundo afora. No Brasil estes assuntos fundamentais foram aprovados pelo Decreto Legislativo nº 61, de 23 de maio de 2024, válidos por dez anos e assim descritos:

   “A Política Nacional de Defesa (PND) estabelece os pressupostos básicos do País em relação à sua defesa e indica quais são os Objetivos Nacionais de Defesa (OND)”; “a Estratégia Nacional de Defesa (END) orienta todos os segmentos do Estado brasileiro quanto às medidas a serem implementadas para atingir os objetivos estabelecidos pela PND” e “os Objetivos de Defesa Nacional (OND), definidos pela Política Nacional de Defesa (PND)”.

   No que diz respeito às relações internacionais, o Brasil busca seguir os princípios constitucionais da não intervenção, da defesa da paz e da solução pacífica dos conflitos. Estes conceitos fundamentais visam garantir a soberania, a integridade territorial, a proteção do patrimônio nacional e o livre exercício dos poderes constitucionais, por meio do “desenvolvimento de uma mentalidade estratégica de defesa no seio da sociedade brasileira, fundamental para sensibilizá-la acerca da importância das questões que envolvam ameaças à soberania, aos interesses nacionais e à integridade territorial do País”. Ou seja, pela aplicação de uma arte que visa a aplicação do Poder Nacional para alcançar, pacificamente, os objetivos nacionais permanentes sem a aplicação das forças de que dispõem prontamente para manter a integridade territorial do Brasil, descrita pelo crítico literário Alceu Amoroso Lima (1893-1983), como sendo “o maior assombro da nossa história”.

4. FORTALEZA VEM DE FORTE, IMPONENTE PROTEÇÃO

A TRIBUNA, 12/05/2025

   “Respeito de Sul a Norte, mais um pedaço de chão / Sua história é a do país, razão de ser feliz, toda nossa região / Foino século 16, na Ilha de Santo Amaro / Que a fortaleza se fez, servindo a todos o amparo / Rei Felipe autorizou, Antonelli projetou esse monumento raro ...”. Esta estrofe de uma canção do escritor, poeta e compositor Ivan Di Ferraz o destaca como pessoa que se dedica de corpo e alma à Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, em Guarujá, que data de 1584.

   Eis aí uma pessoa de rara competência que recebe os visitantes daquele monumento histórico nacional, cravado no esporão rochoso que moldura a margem esquerda do estuário de Santos visível de todas as praias da Ilha de São Vicente voltadas para a Baía de Santos.

   Sua história, como diz o nosso compositor-repentista, está intimamente ligada à formação da nossa nacionalidade, pois diante de sua espessas e rústicas muralhas de pedras pintadas de branco ocorreu um combate naval entre três caravelas da esquadra do almirante Diego Flores Valdés, espanhol, contra dois navios ingleses de Eduard Fenton, na tarde do dia 24 de janeiro de 1584, na embocadura do estuário de Santos, onde hoje está a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, dando origem à sua construção, inicialmente em taipa militar.

   Santo Amaro da Barra Grande, ao contrário das outras fortificações coloniais do Brasil, não foi apenas um bastião contra piratas, corsários e aventureiros de outras nações colonizadoras. Foi, acima de tudo, um símbolo de advertência do domínio incontestável de Felipe II da Espanha sobre os habitantes de São Vicente, no início do longo período de união das coroas ibéricas (1580- 1640).

   Parte do efetivo militar do galeão espanhol Santa Maria de Begônia, avariado em combate, integrou-se a sociedade local, como foi o caso do seviliano Bartolomeu Bueno, patriarca de uma família de bandeirantes, incluindo o seu filho que herdou o seu nome e o apelido de Anhanguera que significa “diabo velho” ou “velha alma” na língua tupi-guarani.

   O mais expressivo conjunto arquitetônico militar colonial do Estado de São Paulo é assim apresentado pelo simpático guardião daque monumento de origem militar colonial, indicado para ascender de Patrimônio Histórico Nacional para Patrimônio Cultural da Humanidade, a ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

5. A RAINHA DA VITORIA

A TRIBUNA, 03/07/ 2025

   Na pequena cidade de Lindos, na costa leste da Ilhas de Rodes, na Grécia, de onde se pode observar o azul celeste do Mar Egeu, encontrava-se esculpida na pedra bruta uma escultura em mármore de Paros, com 5,57 metros de altura, contendo a deusa Nike (em grego, Nike ou Niké, significa Vitória) filha de Zeus, na mitologia grega, “conhecida por sua sabedoria, estratégia em batalhas e habilidades artesanais, sendo frequentemente associada à justiça e às artes”.

   A escultura datada de 190 a.C., encontra-se atualmente exposta na escadaria Daru, no Museu do Louvre, em Paris, pois foi retirada do seu ninho original após a “redescoberta” em 1863, nas ruínas do Santuário dos Grandes Deuses, na Ilha de Samotrácia, próximo à Ilha de Rodes.

   O cenário deslumbrante da Ilha de Rodes foi escolhido para compor as cenas de batalhas do filme Os Canhões de Navarone, reproduzindo o poderio alemão sobe os mares da Grécia, na Segunda Guerra Mundial, impedindo a saída das tropas britânicas de uma ilha de Samotrácia.

   O filme foi lançado no dia 28 de abril de 1961, na Inglaterra, e ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, explorando as chances mínimas dos ingleses enfrentarem em mar tempestuoso visando alcançar a colina da ilha fictícia de Navarone, numa investida frustrada com o objetivo de destruir os canhões alemães.

   Mas, o que mais de destaca na exploração da imagem é o seu uso como logomarca da empresa Nike, por meio de um símbolo estilizado, reproduzindo a escultura da deusa, deitada e sem a cabeça, assemelhando-se a um “V” de vitória, estilizado.

   A retirada do seu nicho pelos franceses, para expô-la no Museu do Louvre, é considerada pelos gregos como o maior “roubo da história” e, na esperança de vê-la de volta à Ilha de Rodes, eles mantêm um santuário vazio, próximo à escadaria de acesso ao topo da Península de Lindos, construído para receber a estátua de volta, mas os franceses não aceitam os pedidos para devolvê-la à Grécia.

6. ARMADA NO MAR E BANDEIRAS NA TERRA I

A TRIBUNA, 22/07/2025

   Foi assim, ao quase assim, que os navegantes singrando mares revoltos e os bandeirantes rumando para o oeste bravio, ousaram construir uma fantástica história de povoamento e conquistas territoriais que se entrelaçam.

   Foi assim também, ou quase assim, com enorme espírito empreendedor que eles, os navegantes e os bandeirantes, ousaram realizar uma fantástica ocupação de novas terras a séculos habitadas por aborígenes e para eles trouxeram novos conhecimentos, novos costumes, novas crenças religiosas e novas línguas - português, espanhol, inglês, francês e holandês -, tudo em troca de uma exploração comercial, catequizadora e, muitas vezes, exercidas de forma violenta. Certa vez alguém nos disse, de forma espirituosa, mas com algumas verdades, que o longo período colonial do Brasil os portugueses nos deixaram buracos em Minas Gerais, igrejas em Portugal e canhões vindo da Inglaterra, estes servindo como lastros para estabilizar os navios que chegavam vazios em busca de novas riquezas. E foi assim também, que fantásticos exemplares de fortificações coloniais foram erguidas e sobrevivem até hoje ao longo do vasto perímetro do Brasil, materializando a nossa história. Elas, as fortificações coloniais, desde 1964 são consideradas patrimônio histórico nacional, e agora estão sendo indicadas para ascenderem à patrimônio mundial, por proposta para reconhecimento pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

    Com um “espírito acadêmico” de professor aposentado, em linguagem simples e coloquial, esperamos, com este breve relato histórico, alavancar o interesse dos mais jovens pelos estudos sobre a arquitetura militar edificada durante o longo período colonial do Brasil. Procuramos assim, alcançar “pessoas que se reúnem para construir e dividir novos conhecimentos, investigar para conhecer melhor, entender e transformar a realidade que nos cerca” (IPHAN). Para tanto, há muitos anos, estamos desenvolvendo um projeto educacional de domínio púbico – www.secomandi.com.br – destinado exclusivamente ao lado belo da arquitetura militar colonial. O interesse pelo assunto nos surpreende, pois, as consultas ao website educacional no mês de julho de 2026 alcançaram 2430 visitas mundo afora, vertidas automaticamente para oito idiomas.

   Esperamos que vocês (leitoras, leitores) que nos honram com a leitura deste texto acadêmico nos ajudem a divulgar esta abordagem histórica pouco conhecida, mas que jugamos relevante para a compreensão da unidade nacional do Brasil, descrita por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde) como sendo “o maior assombro da nossa história”.

7. NOSSA SENHORA DO MONTE SERRAT

A TRIBUNA, 08/09/2025

   Nos idos de 1543, a primeira e única fortificação colonial erguida na Ilha de São Vicente recebeu o nome de Nossa Senhora do Monte Serrat, santa espanhola que viria a ser a padroeira da cidade de Santos.

   Brás Cubas, donatário da região geográfica que abrange toda a Baía de Santos resolveu criar uma nova povoação a partir da original situada junto ao contraforte do Morro dos Barbosas, na vila de São Vicente. O local escolhido foi junto a foz do Rio Itororó, diante do Lagamar de Enguaguassu, iniciando-se com a construção de um pequeno forte – Nossa Senhora do Monte Serrat – e a primitiva Santa Casa da Misericórdia. O forte primitivo não existe mais, pois no seu lugar foi erguida a Alfândega de Santos e suas pedras utilizadas para a construção dos primeiros metros do atual cais do Porto de Santos.

  As duas povoações, como sabemos, deram origem às atuais e pujantes cidades de São Vicente e Santos, as quais testemunharam, ao longo do tempo, muitos eventos históricos relacionados com um ambicioso projeto de ocupação de um território que se expandiu para muito além da Linha Mediática de Tordesilhas, tendo à sua frente alguns bandeirantes, dos quais destacamos Bartolomeu Bueno da Silva (o velho), pai de Amaro Bueno e Dino Bueno. Mais conhecido pelo apelido “Anhanguera”, Bartolomeu Bueno, merece uma citação especial pois foi um dos construtores da Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Ele era um dos tripulantes do navio Santa Maria de Begônia, na esquadra espanhola, comandada pelo almirante Diodo Flores Valdez, que enfrentou, na embocadura do Estuário de Santos, dois navios ingleses comandados pelo almirante Eduard Fenton.  

    As fortificações coloniais de defesa do Porto de Santos, das quais destacamos a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, Guarujá, e o Forte de São João, de Bertioga, possuem um enorme Valor Universal de Excepcionalidade (VUE), pois representam um sistema de defesa moldado, ao longo de muitos séculos, por diferentes tipos de arquitetura militar autóctone que, inegavelmente, muito contribuíram para firmar a ocupação (uti possidetis) do amplo espaço geográfico do Brasil, abrigando três dos maiores ecossistemas do mundo: a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado. Ambas, juntamente com outras dezessete fortificações coloniais que permeiam o vasto perímetro do Brasil, estão indicadas para o Patrimônio Mundial pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), por estarem inseridas no contexto histórico da formação da nossa nacionalidade.

   Sem qualquer preocupação com o “troar dos canhões”, atualmente as duas fortificações coloniais indicadas acima prestam excelentes serviços na área educacional, indicando aos mais jovens o valor e a importância de se preservar e admirar as centenárias muralhas de pedras, sobreviventes no amplo perímetro do Brasil, que outrora foram ocupadas por homens construtores da nossa História.

Elcio Rogerio Secomandi – www.secomandi.com.br

Professor Emérito da Universidade Católica de Santos

Membro BRA 36714 do ICOMOS – Conselho Internacional de Museus e Sítios Históricos /UNESCO

8. TURISMO E CURIOSADADE – PASSO DO LONTRA

A TRIBUNA, 02/10/2025

   Na região pantaneira conhecida como Passo da Lontra, no município de Miranda, Mato Grosso do Sul, existe um passeio emocionante realizado em um pequeno barco que percorre uma área selvagem do Pantanal. O passeio parte de um hotel singular, erguido sobre uma palafita alta, com trilhos e um carrinho de mineradora para o transporte das bagagens. Sob a palafita existe uma quantidade enorme de jacarés, peixes e aves alimentados pelo próprio hotel, o que torna atrativo o início de um passeio exótico realizado a seguir por meio de uma pequena embarcação do próprio hote.

   O passeio é conduzido por um índio local e, com certeza, os turistas poderão ver nas margens do rio uma onça e outros animais ribeirinhos, pois eles são atraídos por uma mensagem padrão de voz do índio, interpretada pelos animas como “hora da refeição”. O índio joga periodicamente pedaços de carne para atraí-los, por uma “associação” com a sua mensagem de voz.

   Os programas de visitação não são divulgados no Brasil, pois a prioridade é para grupos fechados de estrangeiros que visitam o Pantanal. Mas, como fui, por dois anos, a autoridade militar do Exército na região, tive a oportunidade de acompanhar um destes passeios e me surpreendi com a organização e os cuidados envolvendo os visitantes em passeio de barco realizado por guias profissionais. O passeio começa de forma atrativa e até mesmo pelo acesso que se faz por uma estrada de terra batida da antiga travessia do Pantanal, entre Aquidauana e Corumbá, dentre elas a técnica construtiva realizada por meio de deslocamento de terras laterais, formando uma elevação superior ao nível máximo das águas da maior planície alagado do mundo.

   Para não represar as águas, a cada quilômetro ou pouco mais existem pontes feitas com aroeiras, árvore se solidifica em contato com a água. Esta técnica de retirada das terras de ambos os lados da estrada forma depressões, sempre com água, mesmo nas vazantes, o que atrai animais diversos, peixes e jacarés, assemelhando-se a um aquário natural, onde diversos outros animais saqueiam a sede na água doce concentrada nas escavações. O passeio pelas águas do Rio Aquidauana é emocionante e bastante seguro, com todo o equipamento de segurança nas embarcações e devidamente autorizado pela Polícia Ambiental. É possível ver e fotografar diversos animais, pois os mesmos são muito bem tratados pelos guias do hotel, especialmente na alimentação com carnes, frutas e verduras. Se você, que nos honra com a leitura deste breve texto, for amante da natureza, provavelmente se sentirá atraído por este roteiro turístico que se inicia na cidade de Aquidauana, porta de entrada para o Pantanal do Mato Grosso do Sul.

9. O ESPÍRITO DE CORPO

A TRIBUNA, 26/10/2025

   Espírito de corpo é um sentimento de união, lealdade e solidariedade que liga os membros de um grupo ou instituição, fazendo-os sentir orgulho de pertencer a ele e os impulsionando a cumprir suas obrigações em conjunto. Como exemplo citamos as escolas de samba, pois elas reúnem em desfile carnavalesco inúmeras pessoas que pouco se conhecem, agregando de três a cinco mil participantes para desfilarem com suas fantasias diante de um enorme público que ocupa as passarelas.

   Nas escolas de samba, as pessoas agem em conjunto como se estivessem participando de operações militares. Em ambas, os hinos e canções despertam a coragem, a corneta desperta a obediência, os tambores marcam a cadência, as flâmulas indicam o comando e, por fim, as fanfarras e as bandeiras aguçam a vontade de conquistar um objetivo previamente definido, como nos ensinou Sun Tzu, cerca de 500 aC.

   Embora com semelhanças marcantes com as movimentações militares, as escolas de samba são, na verdade, contrapontos significativos ao que acontece nas guerras, conforme nos descreveu Erich Hartmann (1922-1993), um militar alemão que participou das duas guerras mundiais: “A guerra é um lugar onde jovens, que não se conhecem e não se odeiam, se matam por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”.

   Nos desfiles de escolas de samba, ao contrário, as jovens na sua maioria, se amam e se conhecem e não se odeiam, agindo sempre com muito entusiasmo a fim de agradar um enorme público, levando-o a externar seus sentimentos mais nobres sobre o bem-viver. No contraponto dos exemplos das escolas de samba, o “espírito de corpo” pode ser imposto por algumas circunstâncias pouco desejadas, o que nos faz lembrar de uma conversa entre dois amigos advogados: “Pois é, eu aceitei ser o advogado de uma escola de samba e cerca de seis meses depois procurei o presidente da instituição para saber o motivo pelo qual me pegavam religiosamente, sem nenhum caso a resolver, e ele meu deu o triste recado: “Dr., por ora estamos resolvendo tudo de forma amigável. Se houver algum problema policial iremos procurar o senhor”

   O advogado percebeu, então, que não havia como sair do caso, pois não lhe foi limitado corretamente qual seria a sua contribuição e por quanto tempo.

10. JOSÉ BONIFÁCIO NA BATALHA DO RIO CÔA

A TRIBUNA, 05 /11/2025

   No memorial José Bonifácio, em Santos, existe um enorme painel metálico representando o Patriarca da Independência com a espada O em riste, na Batalha do Rio Côa. A batalha, contra as tropas de Napoleão, ocorreu em 24 de julho de 1810, na fronteira entre Portugal e Espanha, limitada pelo Rio Côa, tendo do lado espanhol a cidade de Rodrigo r do lado português a cidade de Almeida, onde ocorre anualmente um ciclo de palestras e de encanações sobre a resistência lusitana à invasão das tropas de Napoleão.

   José Bonifácio, tenente-coronel comissionado do exérecito de Portugal, participou daquela batalha comandando um batalhão de professores e alunos da Universidade de Coimbra,O batalhão acadêmico tinha como objetivo retardar a invasão napoleônica com a finalidade de ganhar tempo para que Portugal pudesse completar a montagem das três linhas de Torres Vedras, ou seja, a construção de um conjunto de três linhas sucessivas de defesa, com 152 fortificações, iniciadas em 1809 na península de Lisboa.

   O objetivo era impedir o ataque das tropas de Napoleão à capital, o que acabou acontecendo. As linhas de Torres Vedras formavam um sistema defensivo de fortificações criado pelo general inglês Wellesley (futuro duque de Wellington) e hoje fazem parte dos roteiros turísticos de Portugal. A encenação da batalha do Rio Côa ocorre anualmente na cidade de Almeida, junto à fronteira, com participação de outas nações europeias, contrárias à expansão das tropas napoleônicas na Europa.

   Trata-se de uma festa surpreendente, pois quase todas as nações que se opuseram a Napoleão se fazem representar cm equipamentos militares usados à época. Tivemos a oportunidade de participar das encanações durante três anos consecutivos, inclusive recebendo vestimentas da época, pois os expectadores, especialmente os estrangeiros, são convidados a participar efetivamente das comemorações.

   Estas lembranças voltaram à minha memória durante a realização de um evento histórico, revivido recentemente pelos amigos José Geraldo Gomes Barbosa e Arlindo Salgueiro, no Centro português de Santos, em evento que marcou o lançamento público do Instituto José Bonifácio, visando preservar a memória do Patrono da Independência do Brasil.

11. NESTA VIDA, DUAS COISAS PODEM ACONTECERA

A TRIBUNA, 30/11/2025

    Existem algumas frases curtas, tipo provérbios, sobre “o levar a vida numa boa”. Desculpem, não me lembro o nome do autor e nem onde fui buscar o ensinamentro abaixo e que me parece importante. São frases interessantes, não ofensivas e bastante apropriadas para aqueles momentos nos quais precisamos dizer alguma coisa e não sabemos o que fazer para manter um "papo" agradável e descompromissado.

   Dentre elas destacamos algumas reflexões interessantes, tais como: nessa vida duas coisas podem acontecer: você pode ser bem ou malsucedido. Se você for bem-sucedido, não tem com o que se preocupar; se for malsucedido, duas coisas podem acontecer: ou você tem saúde, ou está doente. Se você estiver com saúde, não tem com o que se preocupar; se estiver doente, duas coisas podem acontecer: ou você se recupera ou morre. Se você se recuperar, não tem com o que se preocupar; de você morrer, duas coisas podem acontecer: você irá para o Céu ou para o Inferno. Se for para o Céu, não tem com o que se preocupar; se você for para o Inferno irá encontrar tantos amigos/amigas que não lhe darão tempo para você se preocupar.

   Nos meus (90-1) anos de idade, procuro me libertar de ideias ruins, concentrando minhas preocupações em dois importantes membros do corpo humano: as pernas, para adiar o uso de uma bengala; o cérebro, para, no futuro, saber onde irei esquecer a minha bengala, pois ele virá. Para adiar o uso da bengala, pedalo – com triciclo, claro – três ou quatro vezes por semana, pois o portão dos fundos do prédio onde moro dá acesso direto à Ciclovia de Santos. Por outro lado, para manter a mente “funcionando” com certa regularidade, estou quase sempre diante de um microcomputador, “atualizando” um website educacional de domínio público que alcançou quase dois milhões de visitas em 2025, mundo afora, vertido automaticamente para oito idiomas. Abre-se, claro, pelo meu sobrenome e trata apenas do lado belo da arquitetura militar colonial que ainda hoje permeia o vasto perímetro do Brasil, desafiando o longo passar do tempo (séculos XVI, XVII e XVIII), as intempéries e, por vezes, o terrível abandono.

    Por outro lado, procuramos repassar uma experiência de vida – 35 anos do Exército Brasileiro e 25 anos no Magistério Superior –, escrevendo sobre as fortificações coloniais indicadas para o Patrimônio Mundial pela UNESCO, pois as conheemos, todas, fruto de uma excelenre vivência na fronteira oeste do Brasil, no final do terceiro quartil do Século XX, em local onde existia apenas um telefone. na sede da Prefeitura local.

    As letras me recompensam de diversas formas, dentre as quais destaco diversas publicações de pequenos artigos, como este, pelo jornal A TRIBUNA.

Elcio Rogerio Secomandi / Academia Santista de Letras / Academia de História Militar Terrestre do Brasil / Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.

12. FORTALEZA VEM DE FORTE, IMPONENTE PROTEÇÃO

A TRIBUNA, 12/05/2025

   “Respeito de Sul a Norte, mais um pedaço de chão / Sua história é a do país, razão de ser feliz, toda nossa região / Foino século 16, na Ilha de Santo Amaro / Que a fortaleza se fez, servindo a todos o amparo / Rei Felipe autorizou, Antonelli projetou esse monumento raro ...”. Esta estrofe de uma canção do escritor, poeta e compositor Ivan Di Ferraz o destaca como pessoa que se dedica de corpo e alma à Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, em Guarujá, que data de 1584.

   Eis aí uma pessoa de rara competência que recebe os visitantes daquele monumento histórico nacional, cravado no esporão rochoso que moldura a margem esquerda do estuário de Santos visível de todas as praias da Ilha de São Vicente voltadas para a Baía de Santos. Sua história, como diz o nosso compositor-repentista, está intimamente ligada à formação da nossa nacionalidade, pois diante de sua espessas e rústicas muralhas de pedras pintadas de branco ocorreu um combate naval entre três caravelas da esquadra do almirante Diego Flores Valdés, espanhol, contra dois navios ingleses de Eduard Fenton, na tarde do dia 24 de janeiro de 1584, na embocadura do estuário de Santos, onde hoje está a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, dando origem à sua construção, inicialmente em taipa militar.

   Santo Amaro da Barra Grande, ao contrário das outras fortificações coloniais do Brasil, não foi apenas um bastião contra piratas, corsários e aventureiros de outras nações colonizadoras. Foi, acima de tudo, um símbolo de advertência do domínio incontestável de Felipe II da Espanha sobre os habitantes de São Vicente, no início do longo período de união das coroas ibéricas (1580- 1640).

   Parte do efetivo militar do galeão espanhol Santa Maria de Begônia, avariado em combate, integrou-se a sociedade local, como foi o caso do seviliano Bartolomeu Bueno, patriarca de uma família de bandeirantes, incluindo o seu filho que herdou o seu nome e o apelido de Anhanguera que significa “diabo velho” ou “velha alma” na língua tupi-guarani.

   O mais expressivo conjunto arquitetônico militar colonial do Estado de São Paulo é assim apresentado pelo simpático guardião daque monumento de origem militar colonial, indicado para ascender de Patrimônio Histórico Nacional para Patrimônio Cultural da Humanidade, a ser reconhecido pela UNESCO.

13. ARMADA NO MAR E BANDEIRAS NA TERRA II

A TRIBUNA, 23/12/2025

   Os navegantes enfrentando mares revoltos e os bandeirantes por terra nunca dantes exploradas, ousaram construir uma fantástica história de povoamento e conquistas territoriais, avançando muito além da Linha Mediática de Tordesilhas, para nos deixar um enorme País “abençoado por Deus e pela natureza”.

   E tudo aconteceu no segundo quartil do Século XVI (1532), pela ocupação das terras no entorno da Baía de São Vicente, protegida por acidentes naturais submersos existentes na chamada “Garganta do Diabo”, entre a Ilha Porchat e a área continental que se estende terra adentro. Proteção natural e água doce na “biquinha” do Morro dos Barbosas, foram fundamentais para a escolha da região para dar início à colonização oficial do Brasil, após dois anos de reconhecimento da costa brasileira, desde a Foz do Rio Amazonas até à Foz do Rio da Prata, realizado pela esquadra de Martim Afonso de Souza.

   A proteção contra piratas, corsários e aventureiros que chegavam por mar, obrigou nossos antepassados a construírem um fantástico sistema defensivo colonial, composto por diversas obras de engenharia militar, as quais hoje, nos permitem admirá-las por meio de diversas leituras: a partir da organização política representada pelas capitanias hereditárias; pelo domínio espanhol; pelo iluminismo pombalino; pela vertente dos ciclos econômicos que se iniciam com o bandeirismo; pela visão religiosa, e, por fim, pelo viés da evolução da história deste nosso país continental, segundo nos indica o arquiteto do IPHAN, Victor Hugo Mori, amigo de longa data.

   Esta breve revisão histórica nos permite destacar a existência de duas fortificações coloniais que faziam parte do sistema defensivo do Porto de Santos e que hoje encontram-se indicadas para o Patrimônio Mundial pela UNESCO: Forte de São João, 1551, Bertioga, e Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, 1584, Guarujá, SP.

   No período colonial do Brasil, a defesa de inúmeros pontos sensíveis no litoral e na fronteira terrestre gerou a necessidade da construção de expressivos conjuntos de fortificações, os quais, de forma inegável, nos garantiram a posse do território e nos legaram um imenso patrimônio fortificado e de grande valor histórico e cultural e hoje, na linha de “conjunto seriado de bens culturais”, encontra-se indicado para concorrer ao título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO.

14. TANTA TORMENTA E TANTO DANO

A TRIBUNA, 05/01/2025

   Com uma paráfrase extraída do poema Os Lusíadas – “no mar, tanta tormenta, tanto dano; na terra, tanta guerra, tanto engano” –, ousamos destacar a importância das fortificações coloniais que, ainda hoje, permeiam o vasto perímetro do Brasil, desafiando o longo passar dos séculos, as intempéries e, por vezes, o terrível abandono. Durante o longo período colonial, Portugal não dispunha de gente e de militares suficientes para defender o enorme espaço territorial do Brasil. O modelo aplicado foi o de “sesmarias”, responsabilizando os donatários pela execução da defesa terrestre. Eles eram obrigados a edificar a Câmara, a Cadeia e uma fortificação para a defesa aproximada, ficando Portugal apenas com a defesa marítima. E, assim, surgiu o que hoje se chama “parceria público privada”, por meio da construção de um sistema defensivo autóctone, ímpar mundo afora, e que hoje busca um reconhecimento pela UNESCO como Patrimônio Mundial.

   A grandeza e esplendor das espessas muralhas de pedras pintadas de branco e expostas ao sol do entardecer, assustavam os piratas, os corsários e os aventureiros de outras nações colonizadoras. A defesa funcionava em três tempos: os navios piratas até poderiam entrar nas baías litorâneas e saquear as cidades, mas eram fustigados na saída, conforme descrito no Plano de Defesa do Porto de Santos, de dezembro de 1800. A Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, efetuava um tiro de salva, repicado pelas demais fortificações e, assim, “toda a gente da vila capaz de pegar em armas deve seguir para os seus locais de defesa, levando consigo suas armas”.O primeiro e único forte construído na Ilha de São Vicente, para a defesa aproximada, ficava na embocadura do Rio Itororó, erguido antes mesmo da ocupação oficial da vila de Santos, empreendida por Brás Cubas, em 1546. O Forte recebeu o nome de Nossa Senhora do Monte Serrat, mas, infelizmente não foi obstáculo para o ataque do pirata holandês, John Spielberg, em1614. Ele foi desmontado em 1876 para dar lugar à Alfândega de Santos, antecedendo ao chamado Porto Organizado, criado em 1892, quando a Companhia Docas de Santos (CDS) foi implantada. As pedras da extinta fortificação foram utilizadas na construção dos primeiros metros do cais de atracação e o seu desmonte foi “compensado” muitos anos depois dando à santa católica o título de padroeira da cidade

15. REMINISCÊNCIA DE UMA VIDA NA CASSERNA

A TRIBUNA, 12/04/2025

   Há alguns anos, no passado, fui à Embaixada Americana para renovar o meu visto de entrada naquele país.  Um sargento do Exército Americano que organizava a fila de espera reconheceu a minha situação de militar, talvez pelo olhar e atitude que tomei instintivamente. Perguntou-me então: “O Sr é militar? – Sim, respondi! – Então me acompanhe, por favor!”.

   Percebi o valor imenso que os militares americanos dão aos soldados, não importa de que país ou região mundo afora.  Lembrei-me então de uma frase do presidente dos EEUU, John F. Kennedy, dirigindo-se aos soldados: “À Pátria tudo se dá, nada se pede, nem mesmo a compreensão”.

   Infelizmente, no Brasil, a alta consideração que a população tinha para com os nossos soldados – de todos aos postos, graduações ou recrutas – está se perdendo por ações que não me compete aqui analisar. Mas... haverá sempre um momento para se recordar um trecho da carta que Muniz Barreto escreveu em 1893, a El-Rei de Portugal, D. Carlos I.

   “Senhor, existem, em vosso reino, umas casas onde os homens vivem em comum, comendo do mesmo alimento, dormindo em leitos iguais. De manhã, a um toque de corneta, levantam-se para obedecer. De noite, a outro toque de corneta, deitam-se obedecendo. Da vontade fizeram renúncia, por ofício desprezam a morte e o sacrifício físico. Quando se põem em marcha, a sua esquerda vai a coragem e à direita a disciplina”.

   Esta colocação visando valorizar o soldado e sua vida em caserna, nos faz lembrar que tivemos, há muitos anos passados, a oportunidade de lidar com grupos de trabalhadores em greve, numa grande indústria da nossa região. Os trabalhadores se organizavam para uma enorme manifestação pública. Nós éramos apenas uma centena de soldados com a missão de proteger a grande indústria de propriedade governamental. Ao anoitecer, tivemos que dialogar com mais de dois mil grevistas, subindo em um coreto para dizer-lhes que a nossa missão era apenas a de proteger a indústria e o emprego de todos eles: “Se vocês tentarem entrar na área industrial vão ter que passar sobre estes jovens soldados. Mas, se forem para a cidade, nada temos a opor”. Bem, fomos aplaudidos e cada um seguiu o seu caminho.

16. A RETIRADA DA LAGUNA

A TRIBUNA, 29/12/2025

      Ousamos apresentar um escorço bibliográfico sobre uma obra literária de autoria do fundador e patrono da Cadeira Nr 13 da Academia Brasileira de Letras (ABL), Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay (1843-1899), Visconde Taunay, destacando-o como 2º tenente de artilharia e secretário militar das operações bélicas que envolveram o Brasil, a Argentina e o Uruguai, na chamada Guerra da Tríplice Aliança (1869-1870).

   A RETIRADA DA LAGUNA, descreve a operação militar ocorrida na parte sul do atual Estado de Mato Grosso do Sul e encontra-se disponível na Biblioteca Virtual do Senado Federal, volume 149. Taunay descreve com minúcias o retraimento da tropa brasileira desde a fronteira com o Paraguai até a pequena vila de Nioaque, perseguindo-a por cerca de 300 Km por terra e águas pantaneiras disputadas pelos índios guaranis, que apoiavam os paraguaios, e os índios guaicurus, que apoiavam os brasileiros. Conhecidos atualmente como Voluntários da Pátria, os soldados brasileiros alcançaram a região de Laguna, na fronteira, expulsando assim, as tropas paraguaias de Solano López, as quais contra-atacaram a tropa brasileira em operação militar que acabou por se tornar a maior epopeia militar da América do Sul, muito bem descrita por Taunay no seu Diário do Exército – Campanha do Paraguai.

   O livro escrito originalmente em francês (1871) e traduzido para o português em 1872, por solicitação do governo imperial aborda a epopeia da tropa brasileira, conhecida como “Voluntários da Pátria”, ocorrida entre a pequena vila de Laguna, no Paraguai, e a vila de Nioaque no Brasil, distantes cerca de 350 km pelo Pantanal ainda virgem naquela época. A expedição militar foi organizada no Rio de Janeiro, capital do Império, tinha por objetivo expulsar as tropas paraguaias que invadiram o Mato Grosso em ação militar “dissuasória”, visando enfraquecer o esforço da tropa brasileira nas operações ao sul do Brasil, onde o Paraguai tentou sim, obter uma saída para o Oceano Atlântico na região da Bacia do Rio da Prata. A busca paraguaia por uma saída para o mar motivou a reação do Brasil, da Argentina e do Uruguai, por meio da chamada Tríplice Aliança, com operações militares encerradas no dia 1 de março de 1870, em Cerro Corá, onde faleceu o ditador paraguaio, Solano López.    

   Finalizando este pequeno relato histórico pouco conhecido, tomamos a liberdade de incluir uma colocação pessoal, pois a lembrança de dois anos no comando da guarnição de Nioaque foi a motivação maior para rememorar alguns fatos que julgamos significativos, descritos no livro original disponível no portal do Senado Federal. Ou seja, a oportunidade de encerrar em Nioaque os meus 35 anos de serviço ativo no Exército Brasileiro, após comandar o 9º Grupo de Artilharia de Campanha, na região pantaneira onde ocorreu a epopeia vivida e descrita pelo Visconde de Taunay.

Elcio Rogerio Secomandi / Ex-comandante do 9º GAC, Nioaque, MS (1986/1987) / Titular da Cadeira Nr 4, Visconde de Taunay, do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e Professor Emérito da Universidade Católica de Santos. Membro Academia de História Militar Terrestre do Brasil e da Academia Santista de Letras.

17. O MAIOR ASSOMBRO DA NOSSA HISTÓRIA I

A TRIBUNA, 01/04/2026

   Segundo Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), o maior assombro da nossa História é a “unidade nacional”, construída a partir de atos heroicos realizados por navegantes singrando mares nunca dantes navegados e bandeirantes avançando por terras nunca dantes exploradas. Eles, navegantes e bandeirantes, ousaram construir uma fantástica história de povoamento e conquistas territoriais que se entrelaçam.  

   Para entender as colocações acima, é preciso destacar quais foram os atributos definidores da unidade nacional, iniciando-se pelo “faseamento” das operações de conquistas territoriais, projetando o poder colonial português pelo mar, prosseguindo com o estabelecimento de “cabeças de praia” e, por fim, avançando por terra para o Oeste bravio, dizem alguns, em busca de um “Eldorado” motivador de muitas entradas e bandeiras.

   Para dar sustentabilidade às conquistas territoriais Portugal empenhou-se na projeção de três componentes do DNA de uma nova Nação:  Fortificações, Casa de Câmara e Cadeia, para marcar a presença de uma poderosa força exploradora; Fé Cristã, para semear propósitos e pensamentos; e, idioma comum para unir povos aborígenes sobre uma mesma linguagem.

O resultado, como sabemos, foi o surgimento de um “gigante pela própria natureza”.

   E tudo começou na parte central de uma estreita e alongada planície costeira outrora coberta pela Mata Atlântica, onde existem dois estreitos canais de navegação que contornam a Ilha de São Vicente e se aproximam das “muralhas de pedras” da Serra do Mar. Foi nesta região, entre as ilhas de São Vicente e de Santo Amaro que, em 1532, o capitão-mor do Brasil-Colônia, Martim Afonso de Souza, aportou com sua esquadra, após reconhecer o litoral pouco recortado da América do Sul, desde a foz do Amazonas até a embocadura do Rio da Prata. E foi assim, ou quase assim, que as vilas de São Vicente e Santos surgiram em áreas protegidas pela natureza e longe das “vistas” do mar aberto e dos “fogos” dos canhões dos piratas e dos corsários.

   A esquadra de Martin Afonso de Souza, com cinco navios, era composta por “fidalgos, militares de estirpe, soldados portugueses, mercenários italianos e franceses, bombardeiros, besteiros e espingardeiros”. Dentre os tripulantes estava o jovem Brás Cubas, então com 24 anos, que viria a fundar a Nova Povoação por volta de 1540 e transferir o porto, que ficava na embocadura do Estuário de Santos, para o “Lagamar de Enguaguaçu”, próximo ao Outeiro de Santa Catarina e da foz do Rio Itororó. Vencidos os mares bravios e a “muralha de pedras” da Serra do Mar para alcançar o Planalto Brasileiro, os bandeirantes partiram de São Paulo para conquistar e povoar as planícies centrais do Brasil continental, hoje com os seus nomes indicando as estradas modernas que rumam para o Oeste, outrora tão bravio: Anhanguera, Bandeirantes, Fernão Dias e Raposo Tavares.

   Ao longo dos séculos XVI ao XVIII, outras “muralhas de pedras” _ fortins, fortes, fortalezas_ foram erguidas pelos colonizadores no entorno da Baía de Santos, para proteger a primeira “cabeça de praia” (base militar onde se realiza a transposição das operações marítimas para as operações terrestres) indispensável à passagem das operações navais em “mares revoltos”, para o aprofundamento das conquistas de novas terras “nunca dantes” exploradas.

18. LIVRO DE FOLHA SÓ!

BEM-VINDO / BEM-VINDA AO "TAPETE MÁGICO DA HISTÓRIA".

A TRIBUNA, 14/07/2026

Você fará conosco uma viagem virtual pelo vasto perímetro do Brasil.

   Os navegantes enfrentando mares revoltos e os bandeirantes por terra nunca dantes exploradas, ousaram construir uma fantástica história de povoamento e conquistas territoriais, avançando muito além da Linha Mediática de Tordesilhas, para nos deixar um enorme País “abençoado por Deus e pela natureza”.

   E tudo aconteceu no segundo quartil do Século XVI (1532), pela ocupação das terras no entorno da Baía de São Vicente, protegida por acidentes naturais submersos existentes na chamada “Garganta do Diabo”, entre a Ilha Porchat e a área continental que se estende terra adentro. Proteção natural e água doce na “biquinha” do Morro dos Barbosas, foram fundamentais para a escolha da região para dar início à colonização oficial do Brasil, após dois anos de reconhecimento da costa brasileira, desde a Foz do Rio Amazonas até à Foz do Rio da Prata, realizado pela esquadra de Martim Afonso de Souza.

   A proteção contra piratas, corsários e aventureiros que chegavam por mar, obrigou nossos antepassados a construírem um fantástico sistema defensivo colonial, composto por diversas obras de engenharia militar, as quais hoje, nos permitem admirá-las por meio de diversas leituras: a partir da organização política representada pelas capitanias hereditárias; pelo domínio espanhol; pelo iluminismo pombalino; pela vertente dos ciclos econômicos que se iniciam com o bandeirismo; pela visão religiosa, e, por fim, pelo viés da evolução da história deste nosso país continental, segundo nos indica o arquiteto do IPHAN, Victor Hugo Mori, amigo de longa data.

   Esta breve revisão histórica nos permite destacar a existência de duas fortificações coloniais que faziam parte do sistema defensivo do Porto de Santos e que hoje encontram-se indicadas para o Patrimônio Mundial pela UNESCO: Forte de São João, 1551, Bertioga, e Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, 1584, Guarujá, SP. 

   No período colonial do Brasil, a defesa de inúmeros pontos sensíveis no litoral e na fronteira terrestre gerou a necessidade da construção de expressivos conjuntos de fortificações, os quais, de forma inegável, nos garantiram a posse do território e nos legaram um imenso patrimônio fortificado e de grande valor histórico e cultural e hoje, na linha de “conjunto seriado de bens culturais”, encontra-se indicado para concorrer ao título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO.

    O assunto nos parece de grande interesse. Produzimos quatro edições sucessivas de um livro e, por fim, neste ano de 2025, o colocamos à disposição de todos em um website que trata exclusivamente deste assunto e que, perdoem-me a ousadia, tendo ultrapassado dois milhão de consultas (em 2025), vertido automaticamente para oito idiomas.

   ACESSE o livro básico deste projeto educacional de domínio público:

https://www.secomandi.com.br/interna.php?id=133

Elcio Rogerio Secomandi

Academia Santista de Letras / Academia de História Militar Terrestre do Brasil

19. SEIS PASSOS PARA A ETERNIDADE*

A TRIBUNA, 21/07/2026

SEIS PASSOS PARA A ETERNIDADE é uma ingressão educacional de apoio à indicação de duas fortificações coloniais do antigo sistema colonial de defesa do Porto de Santos – Forte São João (1551), Bertioga, e Fortaleza de Santo Amaro (1584), Guarujá – para o Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Estes dois exemplares da Arquitetura & Engenharia portuguesa e espanhola indicados por “valores universais de excepcionalidade” (VEU), poderão ser acrescidos aos treze bens culturais reconhecidos pela UNESCO no Brasil (...), nenhum deles no Estado de São Paulo.

    Para tanto, buscamos inspiração no poema O Canhão e o Arado, de Luiz Emílio Leo – “Nem só de trigo vive a Humanidade; nem só de sonhos, uma Nação” –, atribuindo-lhe, de forma emblemática, uma suposta trajetória imaginária de um arco-íris, iluminado ao longo do seu percurso por estrelas que o orientam ao “pote de ouro” (fábula irlandesa de autor desconhecido). Este olhar simbólico para o “ramo ascendente de um arco-íris” aponta para o início de uma longa jornada, propositalmente “longa” para viabilizar a conscientização, a consolidação e a preparação dos bens culturais a serem avaliados pelo Conselho Mundial da UNESCO. Alcançar o “pote de ouro” não é tão significativo quando as ações já em andamento e conduzidas por representantes de catorze instituições educacionais e culturais indicadas na página 21 do DOU, de 10/09/2018, para elaborar o Dossiê Técnico do IPHAN/SP. O resultado deste “serviço público relevante” será acrescido ao dossiê nacional que abordará o conjunto de dezenove fortificações que permeiam o vasto perímetro do Brasil, dispersas em dez estados da federação.

Com a finalidade de incentivar a produção de trabalhos acadêmicos (TCC, dissertação e tese) sobre estes dezenove exemplares da Arquitetura & Engenharia sobreviventes do período colonial, colocamos à disposição de todos uma proposição fundamentada nestas três palavras-chave, as quais somam mais de 88 milhões de resultados no Google (consulta em16/04/2019, 11:05). Este número expressivo indica, sem dúvida, uma enorme ansiedade dos formandos para o “enfrentamento da prova final” em cursos superiores, em dois momentos: - um dissertativo, para avaliar a capacitação na “escrita” e outro, expositivo, para a “defesa oral” de suas ideias.

 Com muita iconografia e pouca prosa, ousamos colocar mais uma gotinha d’água neste universo de pesquisas na Internet, cientes de que estaremos navegando em três “oceanos simbólicos” (TCC, dissertação e tese), teóricos e exploratórios, porém, com muita esperança na proposição de uma “orientação experimental” inspirada em um pensamento atribuído a Leonardo da Vinci – “A simplicidade é o último grau da sofisticação”.

   Caso aceitem esta modesta contribuição, por favor, consultem o website de professor emérito da Unisantos dedicado exclusivamente ao lado belo das dezenove fortificações coloniais indicadas para o Patrimônio Cultural da Humanidade: www.secomandi.com.br   

Para saber mais ... www.ahimtb.org.br home page / Delegacia Virtual Visconde de São Leopoldo e/ou www.unisantos.br/fortifications

     * paráfrase do filme A um passo da eternidade.

20. O MAIOR ASSOMBO DA NOSSA HISTÓRIA II

      A TRIBUNA, 21/09/2026

   Tomamos a liberdade de titular este ensaio com uma frase emblemática do crítico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), imortalizado pela Academia Brasileira de Letras com o pseudônimo de Tristão de Ataíde, quarto ocupante da Cadeira nº 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco (1818-1880).

   A unidade territorial do Brasil começou assim, ou quase assim, com os navegantes e exploradores do “velho mundo” ousando realizar uma fantástica exploração de novas terras habitadas por aborígenes, trazendo-lhes novos conhecimentos, novos costumes, novas crenças religiosas e novas línguas – português, espanhol, inglês, francês e holandês –, tudo em troca de uma exploração comercial, catequizadoras e, muitas vezes, exercidas de forma violenta.

   Certa vez alguém, de forma espirituosa, mas com algumas verdades, que durante o longo período colonial do Brasil, os portugueses nos deixaram buracos em Minas Gerais, igrejas suntuosas em Portugal e canhões vindos da Inglaterra, estes servindo como lastros para estabilizar

   os navios que chegavam vazios em busca de novas riquezas, em especial o ouro das “minas Gerais”.

   Para indicar a presença de uma nova autoridade, eles, os portugueses e gente da terra, construíram câmaras, cadeias e inúmeras fortificações coloniais que sobrevivem até hoje ao longo do vasto perímetro do Brasil, materializando a nossa história.

   Elas, as fortificações coloniais, desde 1964 são consideradas patrimônio histórico nacional, e agora estão sendo indicadas para ascenderem à patrimônio mundial, por proposta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para reconhecimento pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

   Em linguagem simples e coloquial procuramos desenvolver este tema histórico no website de domínio público que se abre com o sobrenome - www.secomandi.com.br – tendo como propósito maior alavancar o interesse dos maios jovens pelos estudos sobre a arquitetura militar edificada durante o longo período colonial do Brasil.

   Procuramos, assim, alcançar “pessoas que se reúnem para construir e divulgar novos conhecimentos, investigar para conhecer melhor, entender e transformar a realidade que nos cerca” (Iphan).

   Esperamos que vocês (leitoras/leitores) que nos honram com a leitura deste texto acadêmico nos ajudem a divulgar esta abordagem histórica pouco conhecida, mas que julgamos relevantes para a compreensão da unidade territorial do Brasil, descrita por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde) como sendo “o maior assombro da nossa história”.

21. EU SOU A FORTALEZA DE SANTO AMARO

A TRIBUNA, 06/07/2024

 Estou aqui desde 1583 desafiando o longo passar dos séculos, as intempéries e, por vezes, o terrível abandono.

Ao completar 400 anos (1583 -1983) eu estava abandonada, vilipendiada, assaltada por vândalos, quase perdida na poeira do tempo. Mas, das ruínas, ressurgi como a “Fênix”, por ação conjunta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, da Universidade Católica de Santos e da Prefeitura Municipal de Guarujá. Fui adotada, por mais de trinta anos (1983-2014), pela UniSantos e, agora, hospedo o “Museu Histórico Fortaleza da Barra”, administrado pela Prefeitura Municipal de Guarujá, SP.

  Minha “certificação de nascimento”, com 12 páginas manuscritas, está no Archivo General de Indias, Sevilha, Espanha, datado de 5/8/1583, charcas 41, Doc 27, página 6, do almirante Dom Diogo Flórez Vadés ao rei Felipe II de Espanha (Felipe I de Portugal).  O almirante Valdés, “Capitão General das Costas do Brasil”, no início do longo período de união das coroas ibéricas (1580-1640), percorreu o litoral pouco recortado da América do Sul, com dezesseis naus da Invencível Armada espanhola, entre setembro de 1582 e maio de 1584. Além da missão principal que lhe foi atribuída por Felipe II - fortificar o Estreito de Magalhães e empossar o seu governador, Pedro Sarmiento de Gamboa -, Valdés aportou nas principais baías do Brasil-colônia para reconhecer, abastecer e indicar simbolicamente o domínio espanhol sobre a colônia de origem portuguesa. Três naus da esquadra espanhola (Almirante, Concepción e Begônia) sob comando de Andrés Aquino, surpreenderam na Baía de Santos, dois navios ingleses, sob comando de Edward Fenton, abastecendo para rumar o Estreito de Magalhães e alcançar o Oceano Pacífico. Houve um combate na tarde de 24 de janeiro de 1583 e, sob o troar dos canhões, o navio Santa Maria de Begônia sofreu avarias e parte do seu armamento e equipamento foram utilizados na minha construção, inicialmente em taipa militar, com desenho de Bautista Antonelli, arquiteto militar da esquadra de Valdés e membro da família construtora de sistemas defensivos na Europa, na África e na América, à serviço de Espanha. Dentre os cerca de 100 marinheiros espanhóis que ficaram em Santos, estava o carpinteiro Bartolomeu Bueno, o “espanhol”, pai de Jerônimo e Amador Bueno e avô do bandeirante de mesmo nome e conhecido como “Anhanguera.”

   Foi assim que surgi na encosta litorânea deste esporão rochoso, com vista para todas as praias da Baía de Santos e amplo domínio sobre a embocadura do estuário onde hoje está o maior porto da América do Sul. Ganhei, no último quartil do século XIX, duas “sentinelas avançadas”: o Forte do Crasto,1734, (hoje Museu de Pesca) e o Fortim do Góes, 1767, (hoje em ruínas). Em 1902 fui substituída pela Fortaleza de Itaipu, voltada para o mar aberto, com vistas e fogos mais profundos. Mesmo assim, no final do Século XX, ganhei uma moderna cobertura de aço cos-a-cor, com projeto do arquiteto Lúcio Costa, um dos construtores de Brasília, e o enorme painel “Vento Vermelho”, de Manabu Mabe, cobrindo toda a parede do antigo altar da Capela de Santo Amaro. Guardo lembranças de muitos séculos, ostento o título de Patrimônio Histórico Nacional (1967) e orgulho-me de estar na Lista Indicativa 2015 enviada à UNESCO para concorrer ao título de Patrimônio Mundial

   Mas (...), estou com receio de perder a imensa cobertura de aço cos-a-cor que cobre as minhas ruínas, como se fosse um imenso guarda-chuva apoiado apenas nos quatro cantos, pois a ferrugem avança e nunca recebi a manutenção devida. Também não tenho acesso ao painel Vento Vermelho, pois o assoalho da antiga Capela de Santo Amaro está cedendo por ação dos cupins. Assusta-me também, a possível instabilidade de uma enorme pedra assentada sobre uma rocha firme abaixo de uma das minhas guaritas. Um simples “encunhamento” pode resolver esta ameaça desastrosa.

   Você pode me ajudar? Creio que seria assim, a súplica de um monumento histórico que sobrevive por mais de 450 anos.

22. SEM DEIXAR VESTÍGIOS

A TRIBUNA, 08/09/2024

   Nossa Senhora do Monte Serrat, tornou-se padroeira da cidade de Santos em 1955, mas tem o seu nome associado a um fortim construído por Brás Cubas, provavelmente na mesma época da inauguração do primeiro prédio da Santa Casa da Misericórdia de Santos (1543). O fortim não deixou qualquer vestígio, mas merece algumas “pinceladas”, sobre a sua emblemática história.

   Martim Afonso de Souza, após dois anos reconhecendo o litoral da América do Sul – da foz do Rio Amazonas ao Rio da Prata –, deu início à colonização oficial do Brasil (22/01/1532), ocupando a Baía de São Vicente. A baía tem ainda dois fatores preponderantes para dar o início à projeção oficial do poder colonial de Portugal na sua extensa colônia sul americana: a fonte de água doce da “biquinha” do Morro dos Barbosas e a proteção natural da “Garganta do Diabo” situada entre a Ilha Porchat e a área continental. A dificuldade de acesso para navios oceânicos, pelos perigos de danos nas enormes quilhas de compensação das velas, protegia a vila de São Vicente contra o troar dos canhões dos piratas, dos corsários e de outras nações colonizadoras, mas deixavam expostos os navios que fundeavam na embocadura do Estuário de Santos. As pessoas, com os seus pertences, seguiam em pequenos escaleres ou caminhavam pela areia até alcançar a Vila de São Vicente.

   A “Guerra de Iguape” (1534 a 1536), com invasão e saque na vila de São Vicente, por corsários espanhóis vindo do Sul, motivou o fidalgo português, Brás Cubas a transferir o fundeio de embarcações para a região do Lagamar de Enguaguaçu, próximo à foz do Rio Itororó e longe do mar aberto. Em 1543, fundou também a primeira Santa Casa da Misericórdia do Brasil, antes mesmo da elevação da Nova Povoação à categoria de vila de Santos, com foro datado de 1º de novembro de 1546. De imediato também, mandou erguer o Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat, santa católica que viria a ser a padroeira da Cidade de Santos.

   O escritor Costa e Silva Sobrinho, no Jornal A TRIBUNA, de 12 de janeiro de 1964, assim se refere ao Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat: “Uma das primeiras belezas da história de Santos, há muito desaparecida, foi edificada sob a invocação de Nossa Senhora do Monte, a grande protetora até hoje da nossa terra e da nossa gente (...). Esse pequeno reduto voltado para o Porto de Santos foi demolido em 1876 para dar lugar ao prédio da Alfândega”.

   Segundo Victor Hugo Mori, arquiteto do IPHAN, suas pedras também foram usadas para a construção dos primeiros metros do cais do Porto de Santos, que viria a se transformar no primeiro “porto organizado” do Brasil, sob concessão da então Companhia Docas de Santos (CDS).

   O pequeno fortim de Nossa Senhora do Monte Serrat, foi a única fortificação construída na Ilha de São Vicente, no Século XVI, mas não deixou qualquer vestígio arquitetônico. A santa católica tornou-se, porém, a padroeira da cidade de Santos, mais de quatro séculos depois (1543 – 1955).

   A falta de um referencial indicativo de que Santos teve o primeiro fortim do Brasil destruído para a criação do Porto Organizado, me parece uma falha histórica lamentável. O antigo forte, talvez primeiro do Brasil, infelizmente não deixou uma pedra sequer que pudesse ser exposta ao público, hoje em dia e para as gerações futuras. As extintas muralhas de pedras, guarnecidas com canhões coloniais manobrados por homens defensores da Vila de Santos simplesmente “sumiram”, sem deixar vestígios (parafraseando o amigo Adler Homero Fonseca de Castro, historiador do IPHAN).

23. PREGO SEM CABEÇA

A TRIBUNA, 22/09/2024

   “Tanta tormenta, tanto dano / tanta guerra, tanto engano”, são estrofes do poema Os Lusíadas (1572), que nos servem de inspiração para descrever um fato histórico bastante emblemático cujo resultado esperado e lógico poderia mudar o rumo da História, a partir da Batalha de Waterloo (1815).

   Tormentas e danos naturais estão se avolumando por ações humanas que provocam um desequilíbrio ambiental enorme, mundo afora. Mas ainda perdem para a estupidez das guerras, com seus enganos desastrosos. Heric Hartmann (1922 – 1993), piloto de caça alemão na 2ª Guerra Mundial assim resumiu o cenário de uma guerra qualquer: “A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisões de velhos que se conhecem, se odeiam, mas não se matam”.

   Nas guerras são cometidos muitos enganos e um deles nos chama a atenção por estar descrito em um capítulo inteiro (capítulo V) do livro Fora de Controle, de Erik Durschmied (1930 -), Editora Ediouro, 2003. O livro contém análises pontuais sobre dezessete casos desastrosos mundo afora, desde a Guerra de Troia (1184 a.C.) até a Guerra do Golfo (1991).

   Um engano simples, porém, decisivo, foi cometido pelo lendário comandante da cavalaria de Napoleão, Maréchal de France, Michel Ney, na Batalha de Waterloo (18 de junho de 1815). No dia anterior, Ney subiu a encosta da colina do Monte Sr. Jean onde estava a tropa de Wellington para realizar o que se chama de reconhecimento da posição e do valor da tropa inimiga a ser enfrentada. Surpreendeu-se com os canhões ingleses colocados adiante da tropa e apontados para o campo plano onde iria ocorrer a batalha no dia seguinte. Ney ultrapassou a posição dos canhões por mais de hora e meia e não teve o discernimento de ordenar a colocação de pregos sem cabeça nos olhais dos canhões ingleses, inutilizando-os. Segundo o autor do livro Fora de Controle, Ney “era capaz de proezas incríveis e audaciosas, mas, por outro lado, impetuoso e imprudente”. E ironiza encerrando o capítulo V do livro com a seguinte colocação: “O fator decisivo em Waterloo foi bastante irônico. Bastaria alguns pregos sem cabeça (e alguns soldados os tinham, assim como os martelos necessários) – e tudo teria sido diferente”.

   Napoleão, tinha tudo para vencer com facilidade a Batalha de Waterloo, mas as condições meteorológicas, dificultaram a maneabilidade dos canhões franceses enquanto a artilharia inglesa estava pronta desde a véspera da batalha. A garantia de uma vitória esmagadora esteva nas mãos do Maréchal de France que a desperdiçou, por conta de um detalhe quase insignificante.

Na guerra não basta a superioridade de meios e homens. A astúcia, o “pagar para ver” pode estar no movimento da primeira pedra, tal qual acontece, muitas vezes, em um jogo de xadrez.

 Em ambiente onde impera a estupidez dos homens, “o acaso e a incerteza são dois dos elementos mais comuns e mais importantes na guerra” e isto nos preocupa, pois sabemos como elas começam, mas nunca como realmente acabam. Muitas vezes, no entanto, um erro de abertura pode mudar a sorte de muitos empreendimentos, em especial o resultado de uma batalha campal. Como seria o mundo hoje, se Napoleão tivesse vencido em Waterloo?

24. UMA TRIBO FELIZ

A TRIBUNA, 13 /10/2024

   Por muitos anos, proferi palestras sobre Estratégia nos cursos da ADESG – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Estratégia, como sabemos, é uma arte focada na aplicação do poder para alcançar um objetivo estabelecido por uma orientação política.

   Para tornar o assunto um pouco mais atraente, valia-me sempre de uma frase emblemática do Almirante João Carlos Gonçalves Caminha, no livro Delineamento de uma Estratégia: “Ser inerente à vida tanto a busca do melhor viver quanto a recusa em partilhar o essencial ao bem viver”. Procurava, assim, adaptar uma breve “história” sobre o cotidiano de uma suposta tribo indígena que vivia isolada, sem qualquer contato com outras tribos vizinhas. A felicidade da tribo era assegurada por fatos cotidianos de uma existência isolada, sem quaisquer referenciais de condutas externas, que pudessem provocar o que os economistas chamam de “efeito demonstração”.
   Certo dia surgiu uma tribo de esfarrapados do outro lado do rio que banhava a 1aldeia da tribo feliz. Sem qualquer habilidade sobre a “arte da guerra”, o cacique reuniu suas lideranças para discutir o que deveria ser feito. Resolveram então, contratar um especialista em assuntos militares, para estabelecer planos progressivos de busca de uma solução. O especialista em ações de combate, indicou as ações necessárias para quebrar uma possível resistência da tribo de esfarrapados, iniciando pela parte parlamentar (direito de posse da terra), seguida de outras ações pontuais e progressivas: vigilância, embargo, fechamento de entradas e de acesso ao rio divisor, etc. Por fim, “ação em força”, se necessário, iniciando com a preparação de um “pelotão de combate”. A preparação militar incluía o recrutamento dos jovens da tribo, a produção de arcos e flechas, o treinamento diário, a prioridade de alimentação para os guerreiros etc.

   Em seguida, disse o especialista, é preciso realizar uma “demonstração de força”, por meio de três componentes de um sistema defensivo apoiado em uma “política de defesa”;1- levantamento de ações destinadas à defesa dos interesses maiores da tribo feliz; 2 - estabelecimento de objetivos para o preparo e o emprego de todas as expressões do poder militar na tribo feliz; e, 3 - preparação e capacitação do estamento militar. A linguagem do especialista evidentemente não foi muito bem entendida pelos índios, mas, claro era importante criar uma mentalidade de defesa do território que lhe pertencia. Era preciso manter a integridade territorial, como pressuposto básico de expressão dos desejos, aspirações e interesses da tribo feliz e, para tanto, era preciso recompor o território expulsando os invasores.
   Um plano faseado de ações a realizar, deveria iniciar com prudência (negociação, mediação, arbitragem) e prosseguir com ações ofensivas pontuais, para conhecer melhor as possibilidades de reação dos invasores, e, por fim, a realização de um ataque coordenado, se necessário.
Foi assim, ou quase assim, que a tribo feliz que vivia em um vale encantado se preparou para enfrentar uma possível embate fraticida em defesa dos seus interesses maiores. Foi assim também que surgiu naquelas terras virgens os fundamentos de uma estratégia dissuasória, visando evitar a aplicação do poder militar. São poucas as pessoas, mesmo na atualidade em que vivemos, que se importam com estes assuntos tão bem descritos nos documentos atualizados e aprovados periodicamente pelo Congresso Nacional e disponíveis na Internet: PND (Política Nacional de Defesa), END (Estratégia Nacional de Defesa) e LBD (Livro Branco de Defesa). Consulte-os, se o assunto for do seu interesse. DEFESA é um assunto pertinente a todos nós, brasileiros.

25. GUAICURUS I

A TRIBUNA, 05/11/2024

   Os índios guerreiros, que habitavam o Pantanal –  maior planície alagada do mundo –, tiveram participação ativa na campanha militar que se tornou conhecida mundo afora, por minuciosa descrição no livro A Retirada da Laguna, do alferes Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843-1899), futuro Visconde de Taunay, membro da Academia Brasileira de Letras. O livro, originalmente escrito em francês, foi vertido para o português em 2011 e encontra-se disponível na Biblioteca do Senado Federal, Brasília, volume 149.

  Os Guaicurus eram os “senhores” daquelas amplas áreas alagadiças e, em épocas remotas, lá existia apenas a Colônia Militar de Nioaque, instalada em 1855. Dez anos depois, Nioaque foi invadida pelos paraguaios, supostamente em manobra dissuasória e desgastante, para obrigar o Brasil a abrir uma segunda frente de batalhas na Guerra da Tríplice Aliança. Uma outra coluna paraguaia subiu o Rio Paraguai alcançando o Forte Coimbra, também rechaçada por soldados brasileiros e índios guaicurus.

  Taunay, descreve com detalhes a formação de um corpo de exército – conhecido como “Voluntários da Pátria” – composto por brasileiros provenientes de quase todas as regiões geográficas do Brasil e por índios guaicurus. Com uma descrição tipo diário de campanha, Taunay destaca a concentração da tropa brasileira na pequena vila de Miranda, MS, junto ao Rio Aquidauana, onde se formou um “corpo de exército” propriamente dito. No dia 11 de janeiro de 1867, uma brigada com cerca de 1600 homens partiu de Miranda rumo ao Sul, chegando a Nioaque treze dias depois (24/01/1867), encontrando-a abandonada e incendiada pelos paraguaios. No 25 de fevereiro de 1867 os voluntários prosseguiram em marcha para o Sul, enfrentando sempre as emboscadas dos paraguaios, especialmente nas travessias dos inúmeros rios e “corixos” (depressões alagadas, assim definidas por Taunay).

   Segundo Taunay, os guaicurus, foram recrutados para atuar principalmente como guias das tropas em região ampla e desconhecida e foram homenageados pelo Exército Brasileiro com o nome histórico da  4ª Brigada de Cavalaria (Brigada Guaicurus), com sede em Dourados, MS, tendo o 9º Grupo de Artilharia de Campanha (9º GAC), com sede em Nioaque, como uma das suas peças de manobra.

   Tive a honra de comandar o 9º GAC por dois anos sucessivos (1986/1987), quando já se haviam passados cento e vinte anos da malfadada epopeia tão bem descrita por Taunay e pude constatar que ainda prevalecia – e prevalece até hoje – a solidariedade dos fazendeiros, dos peões e dos remanescentes índios guaicurus, em especial dos seus sucessores, terenas, que ocupam uma reserva com aproximadamente 30 Km2, em Nioaque, a pouco mais de 7 Km do 9ºGAC. A aldeia tecnicamente chamada de TI (Terra Indígena) tem apoio das autoridades dos três escalões de governo (local, estadual e federal) e está dividida em três subáreas destinadas a habitações, ao plantio e à floresta virgem onde predomina a aroeira. A aroeira é o “concreto” do Pantanal, pois se solidifica em contato com a água.

   O 9º GAC recebe anualmente, até os dias atuais, cerca de 400 jovens, muitos de origem indígena, para os quais são ministradas instruções militares de dia e parte da noite, com dois propósitos: ocupá-los o máximo possível e compensá-los com três dias de folga, uma vez por mês, para visitarem suas famílias. A área de recrutamento e de responsabilidade do 9º GAC se estende por quase todo o lado Oeste da Serra de Maracaju, englobando o Pantanal do Mato Grosso do Sul até alcançar a fronteira do Brasil com    o Paraguai. E, desta enorme área pouco habitada os jovens são convocados para prestar o Serviço Militar. A eles prestamos uma pequena homenagem, especialmente aos Guaicurus.

  Tive a honra de comandar a artilharia da 4ª BdaCMec na fronteira oeste do Brasil.

  Para saber um pouco mais sobre a cidade histórica de Nioaque, MS, <__clique aqui.

26. GUAICURUS II

A TRIBUNA, 20/10/ 2024

   A ocupação militar do Pantanal – maior planície alagada do mundo – teve início com a implantação das colônias militares de Nioaque (1855) e Dourados (1856), ambas no Mato Grosso do Sul.  Aquelas pequenas vilas de meados do Século XIX atualmente sediam unidades operacionais da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, com o nome histórico de Brigada Guaicurus, reconhecendo assim, a participação dos “índios guerreiros” na malfadada Guerra da Tríplice Aliança.

   Por mais de um século, as unidades operacionais da 4ª BdaCMec foram montadas ou tracionadas por cavalos e, por isto mesmo, ousamos contar um “causo” bastante conhecido e aplicado, desde “priscas eras”, como trote de aceitação dos novos recrutas. A apresentação do cavalo aos novos cavalarianos se inicia com um “berro” do tenente comandante do Esquadrão de Cavalaria, ordenando ao soldado cavalariça que arraste um cavalo bravo, preso por uma longa corda-tronco enrolada na mão: - “Muito bem, nossa primeira aula prática é sobre o cavalo, nosso principal meio de transporte”. Apontando para o cavalo, diz: “Isto aqui é um cavalo! Alguém tem alguma dúvida de que este belo animal é um cavalo?”.

   Como ninguém tinha a menor dúvida, o tenente passa um dedo na baba do cavalo e o coloca na boca, para espanto dos recrutas. Em seguida, levanta duas galinhas presas pelos pés ... e pergunta se alguém seria voluntário para levá-las até uma aroeira na barranca do rio, numa ravina bem abaixo. Um voluntário sobe no cavalo e o soldado cavalariça prende as galinhas em um ilhós da sela, desenrolando a corda-tronco.    O cavalo começa a dar pinotes para se livrar das galinhas; as galinhas, assustadas, batiam as asas, aumentando a irritação do cavalo. O voluntário é lançado ao chão, o tenente e todos os demais soldados abandonam rapidamente a sombra da enorme mangueira e aguardam o soldado cavalariça retirar as galinhas e amansar o cavalo bravo.

   O tenente recompõe a “sala de instrução ao ar livre” e reprova todos os recrutas nos três principais fundamentos educacionais para um bom cavalariano: - “vocês demonstraram nojo e vão limpar diariamente a baba dos seus cavalos; vocês não prestaram a atenção devida e isto pode custar-lhes a vida, pois o cavalo estanca diante de uma cobra e lança vocês ao chão – eu coloque um dedo na baba do cavalo e chupei outro –; por fim, na Cavalaria não existe a palavra ‘voluntário’, eu mando e você obedecem ...

27. ESTRATÉGIA, TÁTICA E LOGÍSTICA

A TRIBUNA, 25/11/2025

   Duas artes (Estratégia e Tática) gravitam em torno de uma ciência (Logística) relacionada com a seleção e o emprego de meios indispensáveis para o sucesso de um empreendimento qualquer, militar ou empresarial, por exemplo.

   O general francês André Beaufre (1902 – 1975) define a Estratégia como “arte da aplicação dos meios para atingir os objetivos da política”; a Tática como “arte de empregar os meios para obter o melhor rendimento em combate”; e a Logística como “ciência dos movimentos e dos suprimentos de meios”. Beaufre, com certeza, se inspirou em Sun Tzu, c. 500 aC, aplicando alguns instrumentos motivacionais que se propagam mundo afora e estão sempre presentes nas guerras e as manifestações públicas conflitantes: os hinos e canções despertam a coragem; a corneta, inspira a obediência; o tambor, marca a cadência; as flâmulas, indicam o comando e as bandeiras, despertam a vontade dos combatentes ou dos manifestantes.

   Talvez o mais antigo e surpreendente emprego coordenado das artes e da ciência militares ocorreu na Batalha de Galgamela, (01/10/331 a.C.) entre Alexandre, rei da Macedônia, e Dario III, da Pérsia. Pela primeira vez, pelo que se sabe, Alexandre, com uma força militar bem menor que a de Dario, venceu-o pela manobra, que se tornou clássica como “duplo envolvimento”. Alexandre colocou diante da enorme tropa de Dario a sua infantaria, usando-a como bigorna, e a cavalaria dividida em duas lanças profundas, aplicando uma manobra vulgarmente conhecida como “comer pelas beiradas”.

   Para quem desejar saber um pouco mais sobre estas artes e ciência de uso comum pelos militares e por muitos empresários de sucesso, recomendamos a leitura do livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, disponível na Internet, com comentários e aplicações empresariais. Segundo Sun Tzu, a ordem ou a desordem dependem da organização; a coragem ou a covardia, da circunstância; a força ou a fraqueza, da disposição. E, complementa: a fronteira entre a ordem e a desordem está na Logística; entre a coragem e a covardia, na Estratégia; e, entre a força e a fraqueza, na posição “tática” aplicada em momentos decisivos.

   Por outras palavras: “lutar e vencer todas as batalhas não é a Glória suprema; a glória suprema consiste em persistir num bom combate” (Sun Tzu). É isso que fazem os empresários que almejam o sucesso nos seus corajosos empreendimentos.

28. A SOTE AJUDA A MENTE PREPARADA

A TRIBUNA, 14/11/2025

      Louis Pasteur (1822-1895), químico e bacteriologista francês nos deixou a técnica da pasteurização, a vacina contra a hidrofobia ou “raiva”, além de diversos ensinamentos disponíveis na Internet, dentre eles, a necessidade de se manter a mente preparada para enfrentar os percalços da vida cotidiana.

      Para se manter a mente preparada, nada melhor que o teclado de um microcomputador, por meio do qual podemos expressar os pensamentos, bons e ruins, que povoam a nossa mente. Um destes bons pensamentos nos leva a contar uma “história” que ocorreu de forma similar com muitas famílias a partir final da década de 1930, quando Getúlio Vargas mandou queimar os cafezais de vários estados, visando concentrar a produção no Estado de São Paulo para exportação pelo Porto de Santos. Este percalço permitiu que muitas famílias produtoras de café realizassem uma singular migração interna, substituindo assim a imigração de italianos, alemães e japoneses, por razões óbvias que antecederam ao início da 2ª. Guerra Mundial. Neste contexto, minha mãe, viúva com três filhos menores, resolveu sair do interior do Estado do Espírito Santo, abandonando uma fazenda de café, e realizar de uma viagem de trem – Vitória a Minas, Leopoldina e Central do Brasil –, hoje quase impossível, por conta da substituição dos trens por outros meios de transporte terrestre.

      Chegou a minha vez de prestar o serviço militar obrigatório, por sorte, fui servir como soldado na Escola Preparatória de Cadetes, e, por ter a mente preparada, prestei o concurso público e prossegui por trinta e cinco anos no Exército, alcançando o posto maior de oficial combatente de Artilharia.

      Tomei a liberdade de contar esta “história” após a leitura de um artigo escrito por um dos meus melhores amigos – José Geraldo Gomes Barbosa – na TRIBUNA LIVRE do jornal A TRIBUNA, de 8 de novembro p.p., sobre a caça ao caranguejo. Creio que assuntos desta natureza, expondo “experiências de vida”, possam ter interesse maior que simples colocações pessoais sobre problemas alheios. Permitam-me parabenizar o jornal que assino há quase meio século pela iniciativa de prestigiar os seus leitores.

29. POLÍTICA, ESTRATÉGIA E LIVRO BRANCO DE DEFESA NACIONAL

A TRIBUNA, 25/11/2025

      O General Antoini Henri Jomini, do período napoleônico, nos deixou importantes estudos sobre Estratégia, entendida como sendo “a arte de fazer os meios concorrerem para atingir os objetivos da política”; sobre a Tática – entendida como “a arte de empregar os meios para alcançar o melhor rendimento”; e, por fim, sobre a Logística, como “a ciência dos movimentos e dos suprimentos dos meios necessários”. Estes conceitos fundamentais nos permitem abordar sumariamente alguns ensinamentos sobre a Política de Defesa Nacional (PND) e avançar sobre os Objetivos Nacionais de Defesa (OND) a serem alcançados e preservados por meio da Estratégia de Defesa Nacional (END). Por meio deles entende-se tratar de pressupostos básicos aplicados em todos os segmentos do Estado brasileiro, atualizados e aprovados periodicamente pelo Congresso Nacional. Os atuais conceitos fundamentais constam do Decreto Presidencial nº 12.725, de 18 de novembro de 2025.

      Cumpre-nos lembrar que, desde o início do longo período colonial e após a definição das fronteiras (terrestre e marítima) atuais, o Brasil optou sempre pela aplicação de uma estratégia dissuasória visando evitar confrontações diretas com seus inúmeros vizinhos na América do Sul, entendendo-se assim que os três pilares que regem as relações internacionais do Brasil - Desenvolvimento, Diplomacia e Defesa – são suficientes para a manutenção dos princípios constitucionais da não intervenção, da defesa da paz e da solução pacífica para a solução de conflitos previsíveis.

      Felizmente estes conceitos fundamentais sobre política externa são rigorosamente observados pelas diferentes correntes ideológicas que se alternam regularmente nas sucessivas composições governamentais do Brasil. Que assim seja, “para a felicidade geral da Nação Brasileira”, pois estes princípios não intervencionistas são importantes para todos nós, brasileiros.

30. TABATINGA

A TRIBUNA, 06/02/2026

   Tabatinga é uma cidade antiga situada na fronteira oeste no Estado do Amazonas, junto ao Rio Solimões, tendo a vizinhança de Letícia na Colômbia e Santa Rosa no Peru. Na linguagem tupi, tabatinga significa barro branco de muita viscosidade. No início da década de 1980 lá estivemos com alunos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército para estudos estratégicos de defesa daquela enorme região fronteiriça. Para chegar lá, havia apenas o transporte aéreo realizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) por meio de um hidroavião “catalina”, que aproveitava o leito do caudaloso Rio Solimões para pousar, após um realizar um voo “rasante” de reconhecimento para ter certeza de que não havia obstáculos, tais como arvores ou barrancos flutuando na superfície do maior rio formador do Amazonas. A visita de estudos estratégicos começava de forma emocionante desde o pouso na água até à recepção calorosa de um pequeno grupamento militar de defesa composto, na sua quase totalidade, por índios ou descendentes, oriundos de tribos próximas.

   Naquela região havia muitos seringueiros independentes e, curiosamente eles amarravam suas canoas nas embarcações maiores e desciam na floresta alagada, munidos com instrumentos de coleta do látex e três pequenos radio de pilhas. Os rádios eram fixados em arvores parcialmente submersas pelas águas do caudaloso rio, formando um triângulo acústico, que lhe permitia retornar ao ponto de embarque para Tabatinga, antes da existência do GPS. O percurso entre Manaus e Tabatinga durava duas horas de avião ou seis dias de barco, navegando apenas durante o dia. Lá, na imensidão do verde da floresta e do movimento exuberante da água do caudaloso rio, tudo se conta em dias, pois os pelotões de fronteira são alcançados por rios menores, afluentes do Solimões, formado uma espécie de mão na qual as pontas dos dedos dão acesso aos diversos destacamentos militares independentes e vigilantes dos acessos à maior floresta tropical do mundo.

   Tive a sorte de viver, por dois anos uma experiência semelhante na maior planície alagada do mundo, o Pantanal, que se contrapõe à floresta tropical acompanhando a calha do Rio Paraguai, outro “gigante” da natureza esplêndida do nosso Brasil. Fui, com muita honra, comandante o único grupo de artilharia de campanha articulado em uma brigada de cavalaria vigilante da fronteira oeste do Brasil.

31. NO MAR, TANTA TORMENTA E TANTO DANO. NA TERRA, TANTA GUERRA, TANTO ENGANO.

A TRIBUNA, 23/02/2026

   O título acima, extraído do poema épico “Os Lusíadas” (C I, 106, 1572), de Luiz de Camões, nos leva a explorar alguns aspectos históricos referentes a projeção do poder colonial português a partir do Porto de Santos, com sua Armada singrando mares “nunca dantes navegados” e prosseguindo com os Bandeirantes “por terras nunca dantes exploradas”.

   E tudo começou na antiga Capitania de São Vicente, logo após D. João III, enviar em dezembro de 1530, uma poderosa força expedicionária composta por cinco navios, sob comando de Martim Afonso de Souza, com o título de capitão-mor de uma esquadra que tinha por objetivo maior explorar a costa leste da América do Sul, desde a foz do Rio Amazonas até a foz da Bacia do Rio da Prata.

   No segundo ano de sua viagem histórica (1532), Martim Afonso de Souza optou pela Baía de São Vicente para dar início à colonização oficial do Brasil. Tais fatos muito contribuíram para o acirramento das ações dos corsários ingleses, holandeses e franceses, inimigos de Espanha, especialmente durante o longo período de união das coroas ibéricas (1580-1640). Para proteger suas novas conquistas Portugal montou um fantástico sistema defensivo colonial construído ao longo da costa leste da América do Sul. Atualmente dezenoves fortificações coloniais que permeiam o vasto perímetro do Brasil estão indicadas como “conjunto de bens seriados” para ascenderem ao Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

   A defesa do incipiente Porto de Santos, por exemplo, teve início com a construção, em 1584, da Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande - atualmente, Guarujá, SP. – e lá permanece com sua estrutura de pedras irregulares, protegida por uma fantástica cobertura em aço cos-a-cor, projetada por Lucio Costa, um dos arquitetos consagrados pelo projeto de construção de Brasília. Vale lembrar que a defesa do Porto de Santos era feita por tiros de salva replicado pelas demais fortificações não somente alertando a população à qual tinha, inclusive, suas próprias armas e locais prévios de defesa. Os corsários e piratas sabiam, portanto, que o problema não estava nos saques das cidades que se escondiam em estuários, mas sim na saída, quando todo o sistema defensivo estaria montado, segundo planos previamente aprovados e executados pela população local, com suas armas próprias.

32. INVISÍVEIS E INTOCÁVEIS

A TRIBUNA, 25/01/2026

   Dois postos de observação militar (POs) construídos no Século XVIII, se escondem sob a mata ciliar da encosta marítima do Morro dos Limões, Guarujá, SP, na margem esquerda da embocadura do estuário que abriga o Porto de Santos. Foram construídos com pedras talhadas sobre bases quadrangulares e medem cerca de 25m2 cada um deles. Estão totalmente preservados e são “invisíveis” (pela camuflagem natural) para quem olha para eles a partir de qualquer das praias da Baía de Santos.

   Porém, deles é possível observar: o mar e a orla marítima; o acesso ao porto, os edifícios e os morros próximos; as escarpas da Serra do Mar e o infinito céu azul em dias ensolarados. Eles eram utilizados para vigiar e expedir ordens de alertas sobre a aproximação de naus suspeitas de piratas ou de corsários, além de outras funções militares, dentre elas a de servirem como bases de retraimento (segunda linha de defesa), caso a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande e/ou o Fortim do Góes fossem tomados de assalto, pelo mar.

   Os dois POs merecem ser analisados a partir de uma visão estratégica ampla dos portugueses – admirável e impressionante – sobre a ocupação das áreas geográficas escolhidas para as primeiras etapas da colonização do Brasil. Naquela época era preciso, dentre outros fatores relevantes, ter água doce nas proximidades e proteção militar edificada ou natural contra o troar dos canhões dos piratas e dos corsários. A vila de São Vicente, tinha estes dois fatores significativos, mantendo a ancoragem dos navios na embocadura do estuário de Santos, diante do Morro dos Limões, aproveitando a sua proteção natural do costão da Ilha de Santo Amaro (Guarujá), além da existência de uma fonte de água doce e de uma plantação de limões, importante para o combate ao escorbuto. As pessoas seguiam a pé para a vila de São Vicente e a mercadorias eram transportadas por escaleres ou por tropas de burros. O local de ancoragem das naus está assinalado com uma réplica do “padrão português de posse da terra”, semelhante ao que existe em Sagres, Portugal. Não possuía trapiche e ficava na região hoje conhecida como Ponta da Praia, Santos, longe do Povoado de São Vicente (1532), que se expandiu a partir de 1546 para a parte interna do Estuário de Santos, dando início a atual cidade de Santos.

   Você, caro leitor, pode realizar um passeio emocionante visitando a Fortaleza de Santo Amaro, sem ônus e nem agendamento, pois é administrada pela Prefeitura de Guarujá e está aberta ao público no horário normal (09 às 17h), exceto às segundas-feiras. É muito simples: basta tomar a barca que faz o trajeto marítimo para a Praia do Góes, saindo do atracadouro Edgard Perdigão, na Ponta da Praia, Santos, dez minutos antes das horas cheias. Você pode descer da embarcação no atracadouro da Fortaleza e pode percorrer um caminho sinuoso até alcançar a Praia do Góes, acompanhando a linha d’água e que lhe propiciará uma visão maravilhosa do Estuário de Santos, além de poder realizar um bom exercício curtindo a beleza e a natureza exuberante que moldura a Baía de Santos.

   Para saber um pouco mais, acesse o website educacional destinado exclusivamente ao lado belo da arquitetura militar colonial: https://www.secomandi.com.br/interna.php?id=133

33. SIMPLICIDADE: O mais alto grau de sofisticação

A TRIBUNA, 16/10/2025

   KI SS é um acrônimo inglês – (Keep it simple, stupid!) - que tem o propósito de induzir as pessoas a tornarem as coisas mais simples, sempre que possível, especialmente para o “consumidor final”. E = mc², descrita por Albert Einstein em 1905, é um exemplo marcante de “simplificação” na apresentação pública de uma das principais leis do universo, por exemplo.

   Uma experiência profissional marcou profundamente os dois anos vividos no Pantanal, na pequena vila militar de Nioaque, Mato Grosso do Sul, onde tivemos a oportunidade, entre 1986/1987, de “preparar” jovens para a defesa da nossa Pátria, convocando-os nas enormes fazendas que ainda hoje oferecem a maioria dos empregos disponíveis na maior planície alagada do mundo. Alguns precisavam de orientação para o uso de calçados, escovar os dentes regularmente e manter uma higiene pessoal confortável e nós tínhamos que tornar suas tarefas simples, cada um exercendo uma função prática. Não precisávamos explicar para eles como nos orientávamos pelas estrelas usando um goniômetro-bússola e, inicialmente se assustavam com o troar dos canhões ecoando sucessivamente por compartimentos terrestres, por reverberação de um som seco e, digamos, assustador em vasta área plana e pouco habitada.

   Os jovens conscritos eram – e ainda são – treinados para operar os mais modernos canhões do Brasil, naquela época. Embora de origem simples e pouca escolaridade, eles eram sem dúvida, “soldados de primeira linha”, pois sabiam sobreviver pegando peixes “pacu”, por exemplo, colocando-os diretamente no fogo para que as suas enormes escamas e pele rígida fossem usadas como prato. Eram extremamente obedientes, pois estavam acostumados a obedecer aos fazendeiros sem “pestanejar”, como se diz numa gíria bastante conhecida.

   Nós, oficiais e graduados, formados e vindos de cidades grandes, muito aprendíamos com eles, os pantaneiros, especialmente na travessia de cursos d’água e na busca de cobras vivas, não somente para proteção da tropa em um acampamento selvagem como também para levá-las a Campo Grande a fim de trocá-las por soro antiofídico.

34. A RETIRADA DA LAGUNA

A TRIBUNA, 29/12/2025

   Um episódio marcante ocorrido durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) ficou mundialmente conhecido por meio de uma publicação, incialmente em francês, de autoria de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay. Taunay foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira n° 13, cujo patrono é o imortal Francisco Otaviano de Almeida Rosa.

   No livro “A Retirada da Laguna”, Taunay reconstrói uma fantástica epopeia militar centrada numa “série de provocações por que passou a expedição brasileira, em operações ao Sul de Mato Grosso (hoje Estado do Mato Grosso do Sul), no recuo efetuado desde a vila de Laguna, no Paraguai, a três léguas e meia do rio Apa, alcançando o Rio Aquidauana, em território brasileiro.” A “Retirada da Laguna” foi, sem dúvida, a maior epopeia militar do Brasil e, merecidamente, consta dos anais do Senado Federal em livro histórico escrito pelo Visconde de Taunay, um dos integrantes da tropa brasileira. A epopeia encontra-se imortalizada pela “resiliência e os valores brasileiros, com monumentos e memória preservados até hoje”. Ocorreu na região pantaneira entre Laguna, no Paraguai, e a incipiente vila de Nioaque, no então Estado do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. Refere-se a uma manobra de retirada das tropas brasileiras, ocorrida entre 8 de maio e 11 de junho de 1867, durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870).

   Tive a grata satisfação de comandar o 9º Grupo de Artilharia de Campanha, que se instalou na pequena vila de Nioaque, no final da década de 1970/1980, onde se encerrou aquela extraordinária odisseia na qual os soldados brasileiros enfrentaram, as agruras e os sacrifícios que “imolaram suas vidas em defesa da Pátria e da Bandeira, nas longínquas plagas do Paraguai”. A epopeia histórica, mundialmente conhecida e exemplo para outras ações militares de retraimento de tropas, se desenvolveu na região compreendida pelos atuais municípios mato-grossense de Bela Vista, Antônio João,

   Guia Lopes e Nioaque, por onde passaram os soldados brasileiros envolvidos em uma retirada histórica durante a chamada Guerra da Tríplice Aliança. O contingente militar brasileiro se imortalizou com “Voluntários da Pátria”, era composto por 3000 homens recrutados Brasil afora, para combater tropas paraguaias que invadiram o Estado do Mato Grosso. Em janeiro de 1866, o Coronel Carlos de Morais Camisão, comandante da tropa brasileira, então reduzida a 1.680 homens, decidiu invadir o território paraguaio avançando até a vila de Laguna. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia. As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros. Foi, então, decidida a retirada, o que ocorreu sob pressão constante, devido à perseguição furiosa dos paraguaios. Sem munição nem alimentos, a coluna prosseguia em retirada, com o cólera e outras enfermidades, ceifando inúmeras vidas.

   Uma triste lembrança que não se apaga, pois é refeita simbolicamente pelas tropas que atualmente ocupam a região de fronteira que se expande pela maior planície alagada do mundo.

35. A TERCEIRA FASE DO SABER

A TRIBUNA, 25/07/2025

   Quem sabe, faz; quem sabe mais, ensina; e, quem pretende chegar à terceira fase do saber, precisa editar um ou alguns livros. Tivemos a oportunidade percorrer estes caminhos clássicos do saber, concentrando nossos estudos nas fortificações coloniais dos séculos XVI, XVII e XVIII que, ainda hoje, permeiam o vasto perímetro do Brasil.

   Colocamos estas informações em um livro que titulamos como “LIVRO DE FOLHA SO!”, pois ocupa apenas meia folha de papel A4 (frente e verso), tendo, de um lado, um quadro da artista plástica Cristiane Carbone e, do outro, um conjunto de RCodes de acessos às dezenove fortificações coloniais do Brasil, indicadas para o Patrimônio Mundial pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para o Educação, a Ciência e a Cultura).

   Como sabemos, ao longo do vasto período coloniais, o Brasil venceu muitos obstáculos e ainda enfrenta momentos de grandes preocupações no que diz respeito à defesa do nosso amplo espaço geográfico. A preocupação com a defesa territorial nos deixou materializados alguns pontos estratégicos com fortificações autóctones e ímpares mundo afora, as quais nos induziram a produzir um livro de folha só, na versão digital, vertida para oito idiomas e disponível no website – secomandi.com.br –, com mais de 800 mil visitas no primeiro semestre de 2025, mundo afora.

   Para a produção do website de domínio público dedicado somente às fortificações coloniais do Brasil, contamos com a colaboração de um profissional da área da Informática, Jurandir Sotelo, e da artista plástica Cristiane Carbone, que aceitou a nossa proposta para produzir um conjunto de dezenove quatros das fortificações indicadas para o Patrimônio Mundial, todos 40x30 cm cada, dos quais, dois – Forte de São João, 1551, Bertioga, e Fortaleza de Santo Amaro, 1584, Guarujá –, materializam o início da efetiva ocupação do nosso território pelos portugueses e o início do longo período de união das corroas ibéricas (1580-1640).

   Por meio do website indicado acima você, que nos honra com a leitura deste texto educacional, terá a oportunidade de realizar uma viagem virtual pelo vasto perímetro do Brasil, visitando simbolicamente as fortificações coloniais sobreviventes ao longo do vasto período do Brasil.

36. DIALÉTICA DE VONTADES

A TRIBUNA, 06/12/2025

   Trata-se de um “método de raciocínio que consiste em analisar a realidade, pondo em evidência suas contradições e buscando superá-las” (Larousse). Por exemplo, dentre as inúmeras contradições que a vida nos prepara, destacamos nosso desejo de ir para o Céu, mas não agora. Estamos, portanto, nos referindo à melhor maneira de prever e enfrentar um futuro incerto e não sabido, buscando superar vontades antagônicas que possam nos levar ao enfrentamento de possíveis ameaças ou desafios.

   O general André Beaufre (1902-1975) a dialética de vontades nos leva à busca de um caminho para se atingir o ponto decisivo que se pretende alcançar e a melhor manobra a ser utilizada. Nos indica também a necessidade do emprego de três palavras chave: a Estratégia, como “a arte de fazer os meios concorrerem para atingir os objetivos da política”, a Logística, como “ciência dos movimentos e dos suprimentos de meios” e a Tática, como a “arte de empregar os meios para obter o melhor rendimento”.

   Na seleção, suprimento e aplicação dos meios disponíveis para a consecução de um ou mais objetivos estabelecidos pela estratégia selecionadas ocorrem diversas possibilidades relacionadas com a previsibilidade, o raciocínio rápido, a imaginação e a inspiração. Por outro lado, é preciso acionar o espírito empreendedor a fim de se poder tirar o melhor proveito da aplicação dos meios disponíveis com a aplicação dos atributos com muita audácia, conectividade, ação, conhecimento e realização, agindo com prudência, sensibilidade, audácia e habilidade.

   Sun Tzu, cerca de 500 aC, assim descreve os elementos fundamentais da dialética de vontades: “a ordem ou a desordem dependem da organização; a coragem ou a covardia, da circunstância; e, a força ou a fraqueza, da disposição”. Por outras palavras: “a fronteira entre a ordem e a desordem está na Logística; entre a coragem e a covardia, na vantagem estratégica; e, entre a força e a fraqueza, na posição tática”.

37. DISSERTAR, DEFENDER E JUSTIFICAR

Eis a questão!

A TRIBUNA, 17/04/2025

   Dissertar, defender e justificar são os três verbos indicativos de ações a realizar, fundamentais para quase todas as atividades humanas que precisam ser repassadas por escrito, defendidas verbalmente e apoiadas em fontes de consultas confiáveis.

   Segundo Petter F. Drucker, maior expoente da Administração moderna saber interpretar corretamente uma proposição é mais importante que o encontro de soluções, pois, segundo ele, “nada pior que a resposta certa para uma questão errada”. Por exemplo, se a questão dissertativa for sobre a “influência da barbatana do camarão na variação da maré”, quem estudou e tem bons conhecimentos sobre o crustáceo, provavelmente irá escrever páginas inteiras, sem atentar para uma proposta focada apenas na “influência” – absurda, claro – da barbatana na variação da maré.

   Interpretar corretamente uma missão é tão importante ao ponto de levar Napoleão Bonaparte a manter no seu Estado-Maior o coronel menor inteligente do Exército francês (mais burro seria ofensivo a todos eles) e nenhuma ordem de operações era emitida antes que o referido coronel a lesse e interpretasse.

   Por uma razão simples, mas decisiva num “teatro de operações militares” envolvendo quase toda a Europa:_ se aquele coronel obtuso a entendesse, provavelmente todos os demais comandantes operacionais (coronéis, via de regra) a entenderiam também.

   Para alertar os estudiosos sobre a importância dos verbos indicativos (acima), resolvemos reproduzir em oito idiomas, treze palestras realizadas no exterior sobre o lado belo da arquitetura militar coloniais que ainda permeia o vasto perímetro do Brasil, disponibilizando-as em website que se abre com o sobrenome do autor desta comunicação. O modelo dissertativo, expositivo e referencial aplicado nos textos das referidas palestras está assentado sobre o guia para apresentação de trabalhos nos seminários do Conselho Internacional de Museus e Sítios e no Comitê Internacional sobre Fortificações (ICOMOS/ICOFORT), dos quais fazemos parte. Todos os arquivos estão estruturados no formato tradicional de Iniciação Científica.

   As consultas ao projeto educacional de domínio público, surpreende-nos positivamente, pelo fato de estar ultrapassando uma centena de visitas/mês, em diversos países, o que nos indica um desejo maior das pessoas – em particular os estudantes – em aprofundar conhecimentos sobre a arte de colocar no papel algumas ideias fundamentais que permitam comprovar o domínio de determinados conhecimentos acadêmicos. Esperamos que os modelos disponibilizados e links indicados tenham alguma utilidade para quem precisa demonstrar habilidades no emprego dos verbos indicativos utilizados em quase todos os modelos de processo seletivo.

38. O CANHÃO E O ARADO

A TRIBUNA, 16/04/2026

   Embora em extremos opostos – o canhão e o arado –, entende-se que as nações livres não vivem somente de sonhos, cupando jovens e pessoas mais idosas no cultivo dos “louros campos de trigo”. Muitas vezes, infelizmente, precisamos lutar pela sobrevivência neste mundo tão desigual quando o observamos pela ótica da distribuição das riquezas.

   Um bom exemplo sobre estes extremos – Segurança e Desenvolvimento – que tanto se aproximam, vem de um antigo poema do gaúcho – Luiz Emílio Leo – que ouvi com atenção e copei sua abordagem teórica sobre um supondo encontro de um canhão e um arado no fundo de um velho galpão abandonado. Diz o autor que, de repente a voz tronitoante do canhão rompe o silêncio fazendo estremecer todo o galpão: “Diz-me pedaço insignificante de ferro inútil o que fizeste no mundo, de que serve, qual o valor do que se chama arado?” A afiada lâmina do arado respondeu haver entre eles uma só diferença: “Eu sou o bem, tu és o mal, paz e guerra! Matas milhões para um heroi criar; eu revolvo a terra para milhões alimentar”. O canhão respondeu dizendo: “Não me queiras mal! O meu destino será somente visto com pavor; só ódio e maldição, jamais amor. Saibas porém, meu velho companheiro, que não represento somente a destruição, pois sou também a sentinela do direito, o forte guardião da liberdade.

   Marco as fronteiras da soberania. Desumano, eu defendo a humanidade”. Conclui o autor: “Se porventura os déspotas tentarem tomar teus campos de alourado trigo, eu surgirei, e meu poder tremendo será então, arado, teu amigo (...). Saiba, porém que n’ânsia incontida de defesa do solo pátrio contra estranho ousado, darás todo o teu ferro para balas, e será canhão em vez de arado.

   A preparação para um combate, mesmo que indesejável, assemelha-se a bom plano de saúde que pagamos, mas rezamos para não precisar utilizar. Mas e infelizmente nunca passarmos um bom tempo mundo afora sem as agruras de uma guerra, de guerrilha ou convencional e pior ainda “as vitórias (ou as derrotas) não trazem nenhuma reputação de sabedoria nem crédito pela coragem dos combatentes, na medida em que são obtidas em circunstâncias não esclarecidas” pelos governos que as alimentam.

39. SEIS PASSOS PARA A ETERNIDADE 

A TRIBANA, 21/06/2026

   Por iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), um “conjunto de bem seriado”, foi incluído na Lista Indicativa/2015 enviada à UNESCO para ascender ao honroso título de Patrimônio Mundial. O conjunto arquitetônico militar colonial é composto por dezenove fortificações coloniais que permeiam o vasto perímetro do Brasil.

   Tivemos a grata satisfação de prestar um “serviço nacional relevante, sem remuneração”, representando a Fundação Cultural Exército Brasileiro no Comitê Nacional criado pelo IPHAN (DOU, de 10/09/2018, pg 21) para auxiliar na elaboração do Sumário Executivo, com 646 páginas, enviado à UNESCO no dia 01/02/2021. No início de 2022, o Conselho Mundial da UNESCO emitiu um documento indicativo de exigências a cumprir, denominado “Nomination completeness check state party Brazil”. Um bom sinal sem dúvida, embora com exigências não realizadas até os dias atuais.

   As fortificações coloniais indicadas, como “conjunto de bem seriado”, possuem qualidades impares mundo afora e enorme “valor universal de excepcionalidade” (VUE), resultante de uma análise metodológica de seis componentes indispensáveis a serem examinados “in loco”: acessibilidade, autenticidade, sustentabilidade, finalidade, visibilidade e pertencimento. Os quatro primeiros atributos são qualificativos, ou seja, podem ser apresentados de forma incompleta, com prospectivas de ações a realizar. A “visibilidade” abrange a paisagem ambiental do entorno do bem patrimonial e o “pertencimento” refere-se ao valor simbólico que o “conjunto de bem seriado” tem para a população que vive no país que o indicou (Brasil, no caso).

    As fortificações indicadas no Estado de São Paulo – Forte de São João, Bertioga e Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, Guarujá – cumprem perfeitamente as exigências acima, com uma ressalva de acessibilidade na Fortaleza de Santo Amaro, mas já com projeto arquitetônico elaborado pela coordenadoria regional do IPHAN/SP.

   Cumpre salientar ainda que o processo indicativo para o Patrimônio Mundial se assemelha simbolicamente à trajetória imaginária de um arco-íris em busca de um “pote de ouro” (fábula irlandesa de autor desconhecido). Este olhar simbólico sinaliza o percurso de uma longa jornada, propositalmente “longa” para viabilizar a conscientização, a consolidação e a preparação dos bens culturais a serem avaliados pelo Conselho Mundial da UNESCO. Aliás, alcançar o “pote de ouro” não é tão significativo quanto as ações positivas já em andamento há algum tempo.

   O assunto passou a fazer parte de um hobby curtido deste 1993 quando destacamos na Revista Leopoldianun, Vol. XIX, uma síntese sobre as treze crônicas da saudosa jornalista Lydia Federici, publicadas no jornal A TRIBUNA, entre outubro de 1991 e julho de 1993, na sua coluna “Gente e coisas da Cidade’.  Lydia, entusiasta do processo indicativo, infelizmente não pode nos acompanhar na data da inauguração das obras de restauração (21 de abril de 1997), mas nos deixou, na sua última crônica (30 de julho de 1993), uma mensagem que replicamos aqui na esperança de ver aquilo que a vida não lhe deu a oportunidade de ver: “Pois é isso. Então, ao menos em imaginação, ajude, amigo, com maior ou menos força que você tem, a segurar as paredes da antiga Fortaleza da Barra, Tá?”

40. POLÍTICA, ESTRATÉGIA E OBJETIVOS NACIONAIS

A TRIBUNA, 7/10/2026

   Segundo André Beaufre (1902 – 1975), general francês considerado idealizador da escola moderna sobre assuntos estratégicos, Política, Estratégia e Objetivos são palavras-chaves, que orientam a elaboração dos documentos fundamentais para a análise dos cenários nacionais e internacionais mundo afora.

   No Brasil estes assuntos fundamentais foram aprovados pelo Decreto Legislativo nº 61, de 23 de maio de 2024, válidos por dez anos e assim descritos: “A Política Nacional de Defesa (PND) estabelece os pressupostos básicos do País em relação à sua defesa e indica quais são os Objetivos Nacionais de Defesa (OND)”; “a Estratégia Nacional de Defesa (END) orienta todos os segmentos do Estado brasileiro quanto às medidas a serem implementadas para atingir os objetivos estabelecidos pela PND” e “os Objetivos de Defesa Nacional (OND), definidos pela Política Nacional de Defesa (PND)”.

   No que diz respeito às relações internacionais, o Brasil busca seguir os princípios constitucionais da não intervenção, da defesa da paz e da solução pacífica dos conflitos. Estes conceitos fundamentais visam garantir a soberania, a integridade territorial, a proteção do patrimônio nacional e o livre exercício dos poderes constitucionais, por meio do “desenvolvimento de uma mentalidade estratégica de defesa no seio da sociedade brasileira, fundamental para sensibilizá-la acerca da importância das questões que envolvam ameaças à soberania, aos interesses nacionais e à integridade territorial do País”. Ou seja, pela aplicação de uma arte que visa a aplicação do Poder Nacional para alcançar, pacificamente, os objetivos nacionais permanentes sem a aplicação das forças de que dispõem prontamente para manter a integridade territorial do Brasil, descrita pelo crítico literário Alceu Amoroso Lima (1893-1983), como sendo “o maior assombro da nossa história”.

Elcio Rogerio Secomandi / Academia Santista deLetras

Academia de História Militar Terrestre do Brasil

Escorço bibliográfico do livro A RETIRADA DA LAGUNA, de Alfredo d’ Escragnolle Taunay, disponível na Biblioteca Virtual do Senado Federal do Brasil.

   Aborda a epopeia militar ocorrida entre as vilas de Laguna, no Paraguai, e Nioaque, Mato Grosso do Sul, BrasilO autor deste escorço bibliográfico comandou o 9º Grupo de Artilharia de Campanha (1986/1987) sediado em Nioaque, MS



A RETIRADA DA LAGUNA

Uma proposta modular para a produção de trabalhos acadêmicos

      Ousamos apresentar um escorço bibliográfico sobre uma obra literária de autoria do fundador e patrono da Cadeira Nr 13 da Academia Brasileira de Letras (ABL), Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay (1843-1899), Visconde Taunay, destacando-o como 2º tenente de artilharia e secretário militar das operações bélicas que envolveram o Brasil, a Argentina e o Uruguai, na chamada Guerra da Tríplice Aliança (1869-1870).

      Sua fantástica obra literária, A RETIRADA DA LAGUNA, descreve a operação militar ocorrida na parte sul do atual Estado de Mato Grosso do Sul e encontra-se disponível na Biblioteca Virtual do Senado Federal, volume 149. Taunay descreve com minúcias o retraimento da tropa brasileira desde a fronteira com o Paraguai até a pequena vila de Nioaque, perseguindo-a por cerca de 300 Km por terra e águas pantaneiras disputadas pelos índios guaranis, que apoiavam os paraguaios, e os índios guaicurus, que apoiavam os brasileiros. Conhecidos atualmente como Voluntários da Pátria, os soldados brasileiros alcançaram a região de Laguna, na fronteira, expulsando assim, as tropas paraguaias de Solano López, as quais contra-atacaram a tropa brasileira em operação militar que acabou por se tornar a maior epopeia militar da América do Sul, muito bem descrita por Taunay no seu Diário do Exército – Campanha do Paraguai.

   O livro escrito originalmente em francês (1871) e traduzido para o português em 1872, por solicitação do governo imperial aborda a epopeia da tropa brasileira, conhecida como “Voluntários da Pátria”, ocorrida entre a pequena vila de Laguna, no Paraguai, e a vila de Nioaque, distantes cerca de 350 km pelo Pantanal ainda virgem naquela época.

   A expedição militar foi organizada no Rio de Janeiro, capital do Império, tinha por objetivo expulsar as tropas paraguaias que invadiram o Mato Grosso em ação militar “dissuasória”, visando enfraquecer o esforço da tropa brasileira nas operações ao sul do Brasil, onde o Paraguai tentou sim, obter uma saída para o Oceano Atlântico na região da Bacia do Rio da Prata. A busca paraguaia por uma saída para o mar motivou a reação do Brasil, da Argentina e do Uruguai, por meio da chamada Tríplice Aliança, com operações militares encerradas no dia 1 de março de 1870, em Cerro Corá, onde faleceu o ditador paraguaio, Solano López.   

   Finalizando este pequeno relato histórico pouco conhecido, tomamos a liberdade de incluir uma colocação pessoal, pois a lembrança de dois anos no comando da guarnição de Nioaque foi a motivação maior para rememorar alguns fatos que julgamos significativos, descritos no livro original disponível no portal do Senado Federal. Ou seja, a oportunidade de encerrar em Nioaque os meus 35 anos de serviço ativo no Exército Brasileiro, após comandar o 9º Grupo de Artilharia de Campanha, na região pantaneira onde ocorreu a epopeia vivida e descrita pelo Visconde de Taunay.

Elcio Rogerio Secomandi / Ex-comandante do 9º GAC, Nioaque, MS (1986/1987)

Titular da Cadeira Nr 4 – Visconde de Taunay, do Instituto Histórico e Geográfico de Santos.

É Professor Emérito da Universidade Católica de Santos.

   Julgamos oportuno incluir algumas colocações pessoais, não somente por ter sido comandante do 9º Grupo de Artilharia de Campanha, Nioaque (1986/1987), pequena cidade da qual partiram formalmente os Voluntários da Pátria, para expulsar os invasores do nosso território, os quais, em seguida foram rechaçados pelos paraguaios, motivando a famoso recuo das tropas brasileiras, assim descrito pelo Visconde de Taunay:

   “Vossa Majestade inaugurou na América do Sul, com a tomada de Uruguayana, a guerra humanitaria, a que poupa e salva os prisioneiros, a que tracta dos feridos inimigos de par com os nacionaes, a que, considerando a effusão do sangue humano como deplorável extremidade, apenas impõe aos povos os sacrificios indispensáveis para a consolidação da paz. / E é principalmente sob este ponto de vista que ouso suppor-me autorisado a colocar sob o augusto patrocinio imperial a simples narrativa da retirada da Laguna, obra de constancia e de disciplina, em que os officiaes de Vossa Magestade. tendo de defender, no meio de obstaculos de todo o genero, os estandartes e os canhões que lhes haviam sido confiados (...)” (TAUNAY, 1874, capa).

   Por outro lado, a maioria das consultas ao Google estão entre quinhentos e um milhão de resultados relacionados ao tema, o que justifica a importância de, vez por outra, fazer uma consulta ao texto original do livro A Retirada da Laguna.

   O Visconde de Taunay é o patrono da Cadeira Nr 1 da Academia Brasileira de Letras e da Cadeira Nr 4 do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, sendo esta última ocupada atualmente pelo autor desta breve proposição.

ESCORÇO BIBLIOGRÁFICO SOBRE “A RETIRADA DA LAGUNA” – VISCONDE DE TAUNAY

MODELO PARA TRABALHOS ACADÊMICOS (TCC)

INTRODUÇÃO

   Acreditamos que seria quase impossível acrescentar algo novo e/ou complementar diante de tantos estudos já realizados sobre este acontecimento épico e modelar para outros movimentos retrógrados de tropas mundo afora. Não pretendemos ir além de uma análise acadêmica sobre algumas informações importantes, relacionadas ao percurso empreendido pelos Voluntários da Pátria, com ênfase na memorável retirada dos sobreviventes, desde a estância de Laguna, no Paraguai, até as proximidades de Aquidauana, oficialmente encerrada no dia 12 de julho de 1867. A jornada histórica ocorrida nas terras do Mato Groso (hoje Mato Grosso do Sul) e Norte do Paraguai está aqui descrita por meio de breves citações do livro referencial utilizado para elaborar esta proposta destinada ao XI Encontro Internacional de História sobre as Operações Bélicas na Guerra da Tríplice Aliança.

      Esperamos, assim, que os leitores considerem aquela oportunidade de ter ocupado tão honrosa missão na cidade de Nioaque - ponto focal da epopeia a seguir descrita - um século após o acontecimento narrados pelo 2º Ten Taunay, Secretário Militar da operação bélica aqui resumida em seus pontos julgados fundamentais. 

   Por outro lado, uma colocação pessoal talvez indique e/ou materialize hoje em dia, uma vitória para a nossa política de boa vizinhança, a partir do longínquo e último conflito armado na América do Sul. A estratégia dissuasória de defesa adotada pelo nosso país, em relação aos nossos vizinhos, nos permite viver pacificamente desde o final das “Operações Bélicas da Guerra da Tríplice Aliança”, assunto abordado no XI encontro internacional acima indicado.

 Por estas e outras razões sentimentais, tomamos a liberdade de apresentar os breves parágrafos abaixo, na esperança de assim dar uma pequena contribuição para a divulgação de fatos históricos tão importantes para a memória militar do Brasil e dos nossos vizinhos do entorno do principal rio formador da Bacia do Rio da Prata.

DESENVOLVIMENTO

   Como todos sabemos, o exemplar oficial de Artilharia - Visconde de Taunay - tem uma longa história ainda a ser rememorada, a partir do relato histórico-militar editado pela primeira vez, em português, em 1872, a pedido do governo imperial, "pois era desejo do Visconde do Rio Branco, então Presidente do Conselho de Ministros, que a obra, tão honrosa para o crédito das armas brasileiras, tivesse a maior divulgação" (TAUNAY, 1975, p. 194). Cite-se também o escorço bibliográfico escrito em 1910 pelo conselheiro José Antônio de Azevedo Castro (1839-1911), do Instituto Histórico Brasileiro, para a quarta edição francesa do livro A Retirada da Laguna.

   Sobre o assunto do livro, supomos que a melhor abordagem, a nosso ver, será por meio de uma perspectiva singular sobre o conteúdo da obra em questão, iniciando-a pela primeira frase do Prefácio da edição disponível na Biblioteca Digital do Senado Federal, por meio do qual o autor se refere a uma série de provocações “que a expedição brasileira, em operações ao sul da província de Mato Grosso, teve de suportar na retirada desde Laguna, a três léguas e meia do rio Apa, fronteira do Paraguay até ao rio Aquidauana no territorio brazileiro, ao todo trinta e nove léguas percorridas em trinta e cinco dias de dolorosa memória  (TAUNAY, 1874, Prefácio) .

   Por outro lado, para compreender e enaltecer a vida e a obra do Visconde de Taunay, torna-se necessário consultar a História do Brasil, a História do Exército Brasileiro e, com elas, caminhar em largos passos, do período colonial ao surgimento da República.

   Tendo, pois, o Século XVI como preâmbulo, sabemos que no ano de 1524 a história registra a bandeira chefiada por Aleixo Garcia, que partiu da Capitania de São Vicente em direção ao poente, em busca dos tesouros e da prata na Cordilheira dos Andes. Seguindo uma das trilhas dos índios guaranis – caminhos de Piabiru[1] –, a bandeira cruzou a serra de Maracaju e, através do rio Miranda, alcançou o que hoje se chama Corumbá. Subiu o rio Pilcomayo e chegou a Charcas, no Peru, segundo diversas versões históricas sobre o primeiro homem branco a cruzar a serra de Maracaju, divisor de águas das bacias dos rios Paraná e Paraguai. Porém, as terras do Mato Grosso somente foram povoadas pelos bandeirantes entre os séculos XVII e XVIII, fundando o povoado de Cuiabá (1723) e, a seguir, criada a Capitania Geral de Mato Grosso (1748), separada de São Paulo (BARRETO, 1958, p. 294). Tendo estes caminhos como orientação básica os Voluntários da Pátria rumaram inicialmente para Cuiabá, para cortar o avanço das tropas paraguaias.

   Após estas breves citações, recorremos ao Vol. 153 – 3º quadrimestre de 2017 – Edição Especial da Revista do Exército, dedicada aos 150 anos da Guerra da Tríplice Aliança, para ali interpretar os fatos históricos que motivaram a declaração da guerra pelo Brasil (13 dez 1864) e o envio da expedição ao Mato Grosso, logo a seguir (23 dez 1864). Mas estes e outros fatos relacionados com a guerra estão aqui apenas citados para uma contextualização geral sobre os antecedentes que motivaram o envio de tropa para a Capitania Geral de Mato Grosso[2].

   Como sabemos, no dia 15 de dezembro de 1864 as tropas de Solano López deram início à invasão da Capitania Geral do Mato Groso em duas colunas de combate: uma fluvial, pelo rio Paraguai, para neutralizar o Forte de Coimbra; outra, por terra, seguindo o contraforte oeste da serra de Maracaju na direção geral de Concepción, Nioaque, Coxim e daí, provavelmente, Cuiabá[3]. As forças paraguaias não obtiveram êxito no Mato Grosso, dente outros motivos operacionais, foram vencidas pela vastidão do território, pelas águas transbordantes do pantanal, pelas chuvas torrenciais, pelas epidemias e por todo o esplendor do bravio oeste

   A História do Exército Brasileiro indica, porém, que "a invasão levantou, em todo o Império, imenso clamor" (EME, vol 2, 1972, p. 599). Mas, no que diz respeito a ação agressiva às tropas brasileiras[4]. terras e águas da Capitania Geral do Mato Grosso, nos parece ter sido apenas uma ação dissuasória para abrir uma frente secundária ao ataque das tropas paraguaias em ação principal na região em disputa, no entorno da Bacia do Rio da Prata. Mas, como sabemos, foi uma agressão que não poderia deixar de ser contraposta a partir de um clamor público. 

Desta forma, tornou-se imprescindível ao governo imperial dar início à preparação de uma tropa com o sugestivo nome de Corpo de Voluntários da Pátria, tendo aqueles bravos homens e mulheres partido por terras de São Vicente e Santo Amaro no dia 2 de abril de 1865, em pequeno número de voluntários, para alcançar a região do povoado de Miranda em 17 de setembro de 1866, após marcharem num arco envolvente cruzando as terras dos atuais estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, com a finalidade de abordar o Mato Grosso pelo Norte e , assim, conter a invasão paraguaia sobre as terras e as águas do exuberante Pantanal, com a seguinte justificativa:

 “A fim de se posicionar frente à ameaça paraguaia, o imperador assinou o Decreto nº 3.371, de 7 de janeiro de 1865, criando o Corpo de Voluntários da Pátria, com a finalidade de ampliar o escasso contingente de tropas do exército de linha e fazer frente ao ataque de seu belicoso vizinho mediterrâneo” (OLIVEIRA, 2017, p. 32)

   No início era apenas uma coluna de 600 voluntários, mas, alcançou um efetivo aproximado de 2400 homens vindos de outras terras brasileiras, engrossando suas fileiras ao longo do percurso. Uberaba, MG, foi o ponto central do início das operações, constituindo-se oficialmente duas brigadas: “a paulista, de aproximadamente 1.200 homens, comandada pelo Coronel Manoel Pedro Drago, e a mineira, de 1.200 soldados, comandada pelo coronel José Antônio da Fonseca Galvão” (OLIVEIRA, 2017, p. 32). A figura 3 ao lado[5], disponível em – Roteiro da Força Expedicionária do Mato Grosso – contém uma reprodução do longo trajeto percorrido pelos Voluntários da Pátria. Sobre este início das operações, Taunay assim o descreve (junho de 1865):

“uma brigada mais ou menos regular, graça á juncção de muito corpo que o coronel José Antonio da Fonseca Galvão trouxera de Ouro Preto. Não parecendo essa força ainda sufficiente, o comandante em chefe coronel Manuel Pedro Drago dirigiu-a para a capital de Mato Grosso [Corumbá] para ahi completá-la” (TAUNAY, 1874, p. 14).

 

Resultado de imagem para a retirada da laguna mapasA ordem seguinte foi rumar para o Sul e alcançar Miranda[6], ocupada por tropas paraguaias. O Cel Galvão, por ordem do governo imperial assumiu o comando da tropa, à qual foi submetida, desde o início às privações de um vasto território pouco habitado, além de epidemia climática, perdendo inclusive o seu primeiro comandante. Em Miranda, a 1º de janeiro de 1867, quase dois anos decorridos desde a partida dos militares de carreira do Rio de Janeiro para Santos, o coronel Carlos de Moraes Camisão, foi “nomeado pela presidencia de Mato Grosso para assumiu o commando destes malaventurados a quem só profundo sentimento de disciplina pudera conter até então sob as bandeiras” (TAUNAY, 1874, p. 19). O corpo de exército permaneceu entre 17 de setembro de 1866 e 11 de janeiro de 1867 reorganizando a tropa pouco homogênea, muitas enfermidades e falta de suprimentos para rumar para o Sul.

   Os paraguaios se retiraram de Miranda antes da chegada da tropa brasileira e repetiram esta ação de recuo sob pressão, destruindo o povoado de Nioaque, reconhecido por Taunay e o engº Catão Roxo um dia antes da tropa percorrer o caminho: “A 11[de janeiro] a força faz-se em movimento e pela primeira vez as praças de artilharia montada, puxadas por boi, acompanharam a marcha da infantaria” (TAUNAY, 1874, p. 24).

   E, assim, do efetivo inicial de 2.400 homens somente1.600 saíram da povoação de Miranda completamente fardados, armados e providos de munições, rumando para Nioaque (Nioac) onde encontram restos de um acampamento paraguaio, o qual, foi assim estimado nas narrativas de Taunay:

“devia ter pelo menos contido cinco mil homens: tal era com efeito o número do paraguayos que o haviam occupado, antes que parte delle fosse chamada a Humaitá: facto que não podia deixar de confirmar-nos na opinião de nossa insufficiencia numerica ao abrir-se a guerra” (TAUNAY, 1874, p. 26).

 

   É lícito supor então que os paraguaios, mais preocupados com as ações no Rio da Prata, não estavam dispostos a um enfrentamento em terras do Mato Grosso[7]. Desta forma, abandonaram Nioaque no dia 2 de agosto de 1866; dias antes dos voluntários ali chegarem; no dia 25 de fevereiro a força expedicionária brasileira deixou Nioaque e rumou ao Sul, incorporando nas suas fileiras o pantaneiro José Francisco Lopes [8], pressionando a tropa paraguaia a retornar para a fronteira no Rio Apa.

   Sempre fustigado pelos paraguaios em retirada para seu próprio território, os Voluntários da Pátria chegaram à região de Bela Vista, não sem antes realizar um enfrentamento significativo e decisivo contra os paraguaios, ainda em terras brasileiras (margem direita do Rio Apa). Esta ação de combate está descrita minuciosamente por Taunay, especialmente sobre a ocupação das elevações que lhes permitiam “manteve os paraguayo em distancia emquanto marchavamos, e as nossas outras peças iam assim successivamente occupar os pontos que melhor nos podiam cobrir” (TAUNAY, 1874, p. 30). A figura 4 ao lado contém o roteiro completo da Força Expedicionário do Mato Grosso[9].

   Por fim, no dia 9 de abril a tropa brasileira acampou em área a cavaleiro do Apa no povoado de Bela Vista. No dia 30 de abril o “o coronel Camisão acabava de decidir que marcharíamos sobre a Laguna [com os] nossos differentes corpos avançando em quatro divisões distinctas formadas na previsão de ataques de cavalaria que deviamos comeffeilo esperar” (TAUNAY, 1874, p. 91).

   Chegando à Laguna (1º de maio de 1867), os Voluntários da Pátria encontraram a fazenda queimada e uma mensagem que acabou se tornando um indicativo de mudança de postura por parte dos paraguaios, em sua terra natal: “Mal-aventurado o general que aqui vem procurar o tumulo, porque o leão do Paraguay rugirá, altivo e sanguinolento, contra o invasor” (TAUNAY, 1874, p. 92).

   Taunay descreve com detalhes as agruras sofridas pelas tropas brasileiras em território paraguaio, não somente pelas investidas do Exército do Paraguai, mas também pela falta de suprimento de toda ordem, doenças endémicas e baixas que foram aumentando diuturnamente. Estas foram as razões principais que obrigaram o início de uma manobra de retirada sob pressão para o lado brasileiro do Rio Apa. Esta retirada teve início do dia 8 de maio de 1867, com a tropa indo acampar no lado brasileiro no dia seguinte próximo à destruída povoação de Bela Vista. Por outras palavras, de perseguidos, os paraguaios passaram a perseguir as tropas em retirada, fustigando-as até as proximidades de Nioaque. Mas, para alcançar Nioaque era preciso cruzar o caudaloso rio Miranda, rumo à estância do Guia Lopes, uma decisão assim descrita por Taunay:

 

“Em fim, por esse caminho da estancia de Lopes, havia apenas um largo rio que atravessar, o Miranda, emquanto que, pelo caminho ordinario, além desse, encontrariamos outros muitos em nossa frente, alguns porventura pouco volumoso, mas com certeza três consideráveis, o Desbarrancado, o Sancto Antonio e o Feio, que a menor chuva engrossava desmedidamente”. (TAUNAY, 1874, p. 135).

 

   Na retirada de Laguna, no inverno de 1867, Taunay descreve com minúcias a cólera-morbo se alastrando com enorme rapidez nas proximidades de Nioaque, acrescido de outros infortúnios agravados ao longo do tempo e da imensidão do espaço percorrido e ainda a percorrer: a fome, a vastidão do pantanal, as chuvas torrenciais, a lama, as escaramuças e os incêndios provocados pelos paraguaios; as ações heroicas de travessia dos canhões, das carroças, do gado e de outros equipamentos de guerra, sobretudo na transposição do rio Miranda. E, pior ainda, as inúmeras baixas, inclusive a morte do comandante da força (dia 29 de maio, por cólera-morbo), Coronel Carlos de Morais Camisão; do seu imediato, do pantaneiro José Francisco Lopes e do seu filho, dentre outros, contados em centenas.

   Segundo os precisos relatos do autor, os paraguaios “seguiam a trilha dos mortos que ficavam pelo caminho” e o coronel Camisão, ciente de sua situação, deu ordens claras ao médico, doutor Gesteira, que o assistia: “Doutor, disse elle, Vá ter com os soldados. Não se canse inutilmente commigo: estou morto”. O Guia Lopes, por sua vez, dissera algumas horas antes de falecer: “Olhe para este campo de um verde carregado; foi o meu retiro, não chegarei lá. Quanto aos senhores, dentro em breve estarão em Nioac.” (TAUNAY, 1874, p 184).

   O Rio Miranda era o obstáculo maior para a tropa chegar a Nioaque: estava cheio e com enorme correnteza. Era preciso atravessar o grande rio para alcançar a estância de Jardim, com seus laranjais abundante, muito importante para amainar a fome, a cede e a cólera que a tantos levara e a outros ameaçava. Tão logo as águas baixaram, o novo comandante, Major José Thomaz Gonçalves, procurou garantir a segurança da travessia por meio de “um cabo fortemente atado às arvores de ambos as margens” (TAUNAY, 1874, p. 198).

   No dia 30 de maio de 1867 foi dada a ordem de travessia do rio e uma nova onda de entusiasmo ajudou a restabelecer a disciplina e a esperança de sobrevivência. Embora com enormes perdas a tropa atravessou em ordem para a margem direita do rio Miranda, inclusive as quatro peças de artilharia. “Deixá-las como trophéu ao inimigo, não era admissível” e Taunay salienta o fato de que a “apenas duas leguas do rio Nioac, o commandante, para dar aviso de que nos approximavamos, mandou dar uma descarga com os quatro canhães accompanhada de um fogo rolante de todos os batalhões” (TAUNAY, 1874, pgs. 204 e 215). Este sofrimento humano, tão bem descrito por Taunay, só foi amenizado em Jardim, próximo de Nioaque, onde hoje está o cemitério dos Voluntários da Pátria, na estância Guia Lopes de Laguna. De Jardim, a marcha prosseguiu e chegou no dia 4 de junho ao povoado de Nioaque, não sem antes se deparar com um acampamento paraguaio cujos soldados nada fizeram para impedir a retirada dos brasileiros.

   Nioaque estava em poder dos paraguaios, quando da incursão realizada pelas nossas tropas até alcançar Laguna, no Paraguai e, no retorno da coluna em marcha para o Norte, “a linda povoação, abandonada, tomada e devastada pela segunda vez durante a guerra, era apenas um montão de destroços fumegantes”, salienta Taunay (TAUNAY, 1874, p. 221).

   No dia 5 de junho, ao entardecer a tropa partiu do povoado de Nioaque rumo a Aquidauana, em movimento assim descrito por Taunay:

“Seguiamos a estrada do Aquidauana e marchavamos contristados sob a impressão do funesto acontecimento da véspera (...). No dia seguinte, 7, tínhamos quasi transposto as quatro leguas que ha de se chegar ao rio Taquarussú: alcançamo-lo no dia 8 [...]. Atravessamos o Taquaiaussú a 9 e, a 10, passamos, duas leguas além, um riacho denominado Dous Corregos. Chegamos no dia 11 ao porto do Canuto, na margem esquerda do Aquidauana.  Ahi despimos emfim os miseros andrajos que nos cobriam, libertando-nos ao mesmo tempo desses insectos dos campos que penetram na pelle e nella produzem ulceras tenazes. Foi o ultimo pouso da nossa dolorosa volta”. (TAUNAY, 1874 p. 225)

 

   Foi o último pouso da dolorosa volta.... E, assim, com a chancela "Estão Conforme", o 2º Tenente Taunay, como Secretário Militar, assinou a Ordem do Dia de 12 de julho de 1867, dando por encerrada a epopeia da Retirada da Laguna.

CONCLUSÃO

   Para a conclusão deste pequeno escorço sobre a obra A Retirada da Laguna nos parece mais apropriada a descrição da epopeia vivida pelo próprio autor:

"Acha-se concluída a mais melindrosa operação de guerra rodeada dos mais ingentes e extraordinários obstáculos que, num conjunto de circunstâncias muito especiais, jamais aconteceram a forças tão diminutas. Todos os elementos de desorganização a um só tempo procuraram nos acabrunhar: o inimigo sempre desleal, a cólera ceifando os melhores soldados, a fome alquebrando as forças tisicas e abatendo o moral da tropa; a inclemência contínua do tempo e a passagem por lugares nunca trilhados ( ... ). Tudo isso formava uma dura provança que deve, contudo, encher de orgulho o coração daqueles que souberam arrostar tantos perigos com o rosto sereno, e aceitar tantos sofrimentos com muita coragem."(TAUNAY, 1975, p. 184).

   De toda esta epopeia militar da Retirada da Laguna iniciada com a assinatura do Decreto nº 3.371, de 7 de janeiro de 1865, e encerrada com a Ordem do Dia de 12 de julho de 1867, transcorreram por mais de dois anos de peripécias pelas terras do oeste bravio e águas transbordantes do Pantanal, maior planície alagada do Mundo. Apenas 700 homens chegaram a Canuto, encerrando assim uma longa e sofrida retirada, de Laguna até as margens do rio Aquidauana.

“A epopeia empreendida pelos Voluntários da Pátria foi vivida e descrita pelo então tenente de artilharia, Alfredo d'Escragnolle Taunay, em seu livro épico A Retirada da Laguna, do qual abordaremos apenas a parte referente à retirada propriamente dita, desde Laguna até Canuto, nas proximidades de Aquidauana”. (EME, vol 2, p. 137).

 

   Embora o livro cujo exemplar nos serviu de consulta básica (edição do Senado Federal) contenha 248 páginas, divididas em cinco capítulos e alguns anexos, apenas nos propusemos destacar alguns fatos importantes descritos minuciosamente pelo autor. Nos propusemos, com muita ousadia, apresentar um breve escorço sobre um episódio heroico e sofrido, descrito do formato de diário de campanha numa obra literária que contém os mais belos e notáveis feitos da História Militar do Brasil e uma das maiores epopeias militares do Ocidente àquela época.

   Alegra-nos o fato de Nioaque, povoado estratégico situado no contraforte oeste da serra de Maracaju, onde existia uma colónia militar, abrigar hoje em dia a única unidade “categoria especial” da Arma de Artilharia do Exército Brasileiro: o 9º GAC, o qual, vez por outra, reproduz cenas importantes da longa jornada vivida por muitos brasileiros que merecem a nossa maior consideração.

   Creio que podemos concordar com uma análise atribuída ao piloto alemão Erich Hartmann nos indicando que o mundo nunca passou por longos períodos sem enfrentar guerras, a maioria de ordem econômica e/ou por orientação política, nas quais “jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle. A RETIRADA DA LAGUNA. Tradução de Salvador de Mendonça. Rio de Janeiro: Typografia Americana, 1874. Disponível em https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/221688 Acessos dias 5 a 10 de setembro de 2019.

________. A Retirada da Laguna. Rio de Janeiro. Editora Melhoramentos, 1975.

________. Diário do Exército.  Campanha do Paraguai 1860-1870. Bibliex, 2002.

BARRETO, Anibal. Fortificações do Brasil. Rio de Janeiro: Bibliex, 1958.

ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (EME). História do Exército Brasileiro. Fundação IBGE, 1972.

EXÉRCITO BRASILEIRO, Bibliex. Edição completa. Revista do Exército Brasileiro, [ S.l.], v. 153, n. 3, p. 1-108, set. 2017. http://ebrevistas.eb.mil.br/index.php/REB/issue/view/1353 Diversos acessos no mês de setembro e outubro 2019.

OLIVEIRA, Claudio Luiz. A Força Expedicionária do Mato Grosso na Guerra da Tríplice Aliança. Revista do Exército Brasileiro, v 153. pgs 29 a 49. Bibliex, set. 2017. Disponível em http://ebrevistas.eb.mil.br/index.php/REB/issue/view/1353 Diversos acessos no mês de setembro e outubro 2019.

ROSTY, Cláudio Skora. José Simeão de Oliveira­­: Combatente brasileiro que lutou desde o início

da Guerra da Tríplice Aliança até o fim, em Cerro Corá. Revista do Exército Brasileiro, v 153. p. 7. Bibliex, set. 2017. Disponível em http://ebrevistas.eb.mil.br/index.php/REB/issue/view/1353 Acessos em 10 de outubro de 2019, 10:46.

REVISTA DO EXÉRCITO BRASILEIRO (REB). Vol. 153 – 3º quadrimestre de 2017 – Edição Especial: Brasília, 2017.

 

 


[1] Trilhas indígenas com diversos ramos, partindo do litoral do Atlântico rumo ao interior do continente sul-americano.

[2] O artigo do Cel Cláudio Luiz de Oliveira, págs 29 a 49 da referida revista comemorativa dos 150 anos da Retirada da Laguna, contém uma excelente ambientação sobre os motivos da Guerra da Tríplice Aliança.

 

 

[3] No dia 15/12/1864, uma coluna fluvial com 2.440 soldados partiu de Asunción rumo ao Forte de Coimbra e, no dia 22 do mesmo mês, outra coluna, por via terrestre, com 1450 militares partiu de Concepción visando alcançar a capital da província do Mato Grosso (Cuiabá) (OLIVEIRA, 2017, p. 30).

[4] Há, de certa forma, uma semelhança de ação/reação entre a invasão paraguaia ao território brasileiro e o retraimento das tropas brasileiras, de Laguna (Paraguai) até Aquidauana (Brasil), no que diz respeito às condições adversas do Teatro de Operações.

[5] Google: “A Retirada da Laguna Mapas”. Consulta em 9 de setembro de 2019, 20:30.

[6] “A coluna partiu de Coxim em 25 de abril de 1866, atingindo o povoamento [Miranda] em 17 de setembro, em marcha na qual soldados e agregados da expedição caminharam por cerca de 396 km”. (OLIVEIRA, 2017, p. 34).

[7] Em 14/04/1865, Solano Lopes decidiu invadir a Argentina, “obrigando-o a rocar o grosso de suas forças que estavam estacionadas em Mato Grosso para a região meridional do Paraguai (...) Enquanto isso, no teatro de operações do Sul, Argentina, Brasil e Uruguai assinam, em 1º de maio [de 1865], o Tratado da Tríplice Aliança”  (OLLIVEIRA, 2017, pgs. 30 e 31).

[8] Em Jardim, no distrito de Nioaque, o proprietário de um sítio que tinha sua família sequestrada pelos paraguaios, “uniu-se à coluna na tentativa de salvar seus entes queridos” (OLIVEIRA, 2017, p. 36). Passou a ser conhecido como Guia Lopes e teve papel importante nas ações relativas à retirada da Laguna.

[9] Fonte: A Retirada da Laguna Mapas. Disponível em http://guerradoparaguaimatogrossodosul.blogspot.com/ Consulta em 5 de setembro de 2019, 11:12.

 



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